NA ARTRIO: RAQUEL, IOLE, ARTNEXUS

06/set

A marchande Raquel Arnaud escolheu a ArtRio, Pier Mauá, Centro, Rio de Janeiro, RJ, como palco para o início das comemorações de seus 40 anos de carreira, marcados por parcerias duradouras com vários artistas e pela abertura de caminhos para a arte contemporânea no Brasil. Um dos eventos comemorativos é uma visita VIP – para 50 pessoas – ao Ateliê Sergio Camargo, no Paço Imperial. Incluída na programação oficial da ArtRio, a visita acontece no dia 5 de setembro, às 10h e será guiada pelo curador Ronaldo Brito. O espaço, dedicado à memória do artista, falecido em 1990, reproduz seu último ateliê, que ficava em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. A criação do Atelier Sergio Camargo no Paço Imperial foi iniciativa de Raquel Arnaud – que representa o espólio do artista desde a sua morte. Foi inspirado no atelier de Brancusi no Beaubourg/Centre George Pompidou, em Paris. Em paralelo, no stand da ArtRio, Raquel  Arnaud exibirá obras de Iole de Freitas, Waltercio Caldas, José Resende, Sérgio Camargo, Carla Chaim, Carlos Nunes, Carlos Zilio, Celia Euvaldo, Elisa Bracher, Frida Baranek e Geórgia Kyriakakis. Daniel Feingold e Frida Baranek terão individuais no MAM-Rio em setembro e outubro, respectivamente.

 

 

 Visão da arte

 

Segundo o historiador e crítico de arte Rodrigo Naves, a trajetória de Raquel Arnaud se confunde com o período em que o meio brasileiro de arte se diversificou e tornou-se mais profissional e relevante, ao mesmo tempo em que a produção artística ganhava regularidade e consistência. Sob a direção de Pietro Maria Bardi, a futura marchande viveu os primeiros momentos do Museu de Arte de São Paulo – MASP – , na Avenida Paulista, em 1968. Em 1973 inaugurou sua primeira galeria, o Gabinete de Artes Gráficas, em sociedade com Monica Filgueiras. Ao mesmo tempo, a convite da Rede Globo, dirigiu a galeria Arte Global, na qual estreitou relações com artistas como Iole de Freitas, Anna Maria Maiolino, Lygia Pape, Roberto Magalhães, Milton Dacosta e Maria Leontina, entre outros. Em seis anos à frente da Arte Global, organizou mais de cem exposições.

 

Nesses anos de intensa atividade, o trabalho de Raquel Arnaud nessas galerias contribuiu para a divulgação de importantes artistas, principalmente os ligados à arte conceitual e ao construtivismo brasileiro e internacional. Introduziu no Brasil artistas cinéticos como Carlos Cruz-Diez, Jesus Raphael Soto e outros. Em 1980, terminada a sociedade com Monica Filgueiras, fundou sua própria galeria, o Gabinete de Arte Raquel Arnaud, com os artistas Amilcar de Castro, Lygia Clark, Mira Schendel, Waltercio Caldas, Tunga, Carlos Cruz-Diez e Willys de Castro. Em 2011, após a mudança para uma nova sede o espaço tornou-se a Galeria Raquel Arnaud.

 

 

O olhar de Raquel Arnaud em retrospectiva e livro

 

Dois grandes projetos serão destaque nas comemorações: uma mostra retrospectiva e o lançamento de um livro, previstos para 2014. Com extensa pesquisa iconográfica, a publicação abordará as montagens, obras e artistas que passaram pelas três galerias comandadas por Raquel Arnaud. Esses trabalhos foram decisivos para a compreensão de parte significativa da produção artística dos últimos 40 anos. E a retrospectiva apresentará o olhar de Raquel Arnaud através das obras dos artistas que participaram de sua trajetória.

 

 

Iole de Freitas na ARTRIO

 

Mergulhada em projetos novos, Iole de Freitas marca tripla presença na ArtRio 2013. O primeiro momento tem como alicerce a gravura criada especialmente para o projeto que a Escola de Artes Visuais realiza em parceria com a Galeria Múltiplo, e as inéditas esculturas “Casa França-Brasil”, “Fridericianum” e “Akademie der Künste”, de pequenas dimensões, que estarão no stand da Galeria Raquel Arnaud. Os quatro trabalhos formam o primeiro conjunto de obras que Iole desenvolveu dentro do novo conceito, “Eu sou minha própria arquitetura”.  Em paralelo, a artista exibirá, no estande da Galeria Silvia Cintra, outras três obras inéditas que retomam as tonalidades solares – com predominância dos tons vermelhos e inspiradas na estética de cores dos filmes dos anos 1970. Por último, apresenta um múltiplo criado especialmente para a revista ArtNexus, que lançará em seu stand na ArtRio a edição número 90 da revista, cuja matéria de capa é o projeto desenvolvido por Iole para a Casa Daros, “Para que servem as paredes do museu?”.

 

 

Revelações da gravura

 

No stand da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Iole de Freitas participa, ao lado de outros artistas, de um importante projeto de gravuras.  A artista lançará sua gravura no dia 5 de setembro, às 18h; durante a sessão de autógrafos, dará explicações sobre o processo de confecção da obra. O projeto, resultado de uma parceria entre a EAV e a Galeria Múltiplo, objetiva enriquecer o acervo de gravuras da entidade e viabilizar uma tiragem especial de gravuras de grandes artistas. O processo de criação dessa gravura foi mais revelador do que Iole de Freitas esperava. – Foi durante esse processo que me veio o conceito dessa nova fase do meu trabalho, “eu sou minha própria arquitetura” – conta Iole. – “Persegui a dobradura, dentro do conceito de “origami curvo”, e acabei me dando conta de que o formato era bem parecido com o fundo da piscina do Museu do Açude, sempre sem água”.

 

– “Em sua bidimensionalidade, a gravura passa toda a referência de volume e de espaço” – explica Iole. “A geometria bem marcada me lembra o fundo da piscina do Museu do Açude. O primeiro raciocínio foi a gravura, que resume a obra feita para o Açude.  É como se a água que não existe na piscina se refletisse na gravura. A obra do Açude, na escala real, não depende de paredes – e marcou o início do meu trabalho com aço e policarbonato” – conta.

 

 

Trio de novas esculturas no stand da Galeria Raquel Arnaud

 

As três esculturas que estarão na Galeria Raquel Arnaud aprofundam o conceito de uma arquitetura própria da obra. – As “paredes” internas do trabalho, em aço, criam uma arquitetura que reforça a independência de outros suportes – diz Iole, ao explicar que as novas esculturas remetem a trabalhos realizados de acordo com o ambiente e com um espaço determinado, os chamados site-specific. As esculturas receberam os nomes das instituições que abrigaram as obras originais, em escala maior: Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, Fridericianum, Kassel, Alemanha e Akademie der Künste, Berlim. Cada nome é gravado em uma das paredes internas de aço e “espelhado” na outra.  As três peças são feitas em aço e policarbonato.

 

Múltiplo para ArtNexus conclui ciclo

 

O número 90 da revista ArtNexus, que também terá stand na ArtRio, apresenta na capa a foto do múltiplo que a artista criou especialmente para a revista – e que representa, em escala reduzida, a obra exibida este ano na Casa Daros, no Rio. – “O múltiplo criado para a ArtNexus, do qual haverá apenas quatro exemplares na ArtRio, veio fechar o conceito “Para que servem as paredes do museu?”, no qual vinha trabalhando desde o início das obras da Casa Daros” – diz Iole de Freitas. – “Esse foi o trabalho de pesquisa que realizei durante minha residência na instituição. Acompanhei todas as fases da obra de reforma e cheguei a desenhar instalações para os espaços improváveis que via à minha frente: salas sem piso, sem paredes etc. Desenhava sabendo que nunca as realizaria” – conta a artista.

 

O múltiplo é feito em aço inox 316 e lâminas de policarbonato, ora foscas, ora espelhadas. A proposta do trabalho é a desconstrução do espaço arquitetônico e a manutenção do pensamento plástico da obra que está na Casa Daros.

 

Aproximação do vermelho na Silvia Cintra

 

Na stand da Galeria Silvia Cintra, três obras de tamanhos diferenciados retomam as tonalidades solares,  com predominância dos vermelhos e inspiradas na estética de cores dos filmes dos anos 1970. O uso do policarbonato em tons avermelhados e alaranjados denota um outro percurso, predominantemente solar, que vem sendo trilhado pela artista, presente na última exposição que realizou na Silvia Cintra. – “São peças bem distintas dos outros conceitos que venho desenvolvendo, apesar dos materiais serem os mesmos” – conta Iole. – “Os tons vermelhos e avermelhados iluminam as peças com um toque de cinema” – antecipa.

 

 

De 05 a 09 de setembro.

 

Pinturas de Mateu Velasco

02/set

Abrigo é uma palavra que pode remeter a diferentes significados. Para quem se sente abrigado, essas letras podem proporcionar proteção e conforto. Não está ligado diretamente à casa, moradia, e sim à um processo de interiorização. E é seguindo este conceito que o artista plástico Mateu Velasco abre sua exposição individual de pinturas sob o título de “Abrigo” na Galeria Movimento, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ. Nas coloridas e expressivas oito telas de spray e tinta acrílica, o artista mostra que o ato de pintar e trabalhar a imagem se coloca como seu habitat natural e daí nascem os sentimentos de cada personagem que transcendem os traços. Mateu fala de refúgio, semântica do espaço, habitat silencioso. E de mais infinitas definições.

 

As inspirações do artista, que já participou de exposição individual em Paris, além de coletivas em Seattle e Nova Iorque, se renovam o tempo todo, pois o que coloca em seus trabalhos é o que vê no dia a dia. “Permaneço sempre atento, procurando enxergar o ambiente em que vivo e as pessoas com quem me relaciono direta e indiretamente. É possível extrair do nosso cotidiano inspirações inesgotáveis para diversos fins, basta estar atento e observar que nem tudo é o que parece”. Ele conta que desenho é uma das melhores formas de captar esse universo, e que o considera algo fundamental para viver, pois é através dele que se torna possível refletir sobre questões impossíveis de serem verbalizadas, e pensar em novas soluções para novos desafios.

 

 

Sobre o artista

 

Mateu Velasco nasceu em 1980, em Nova Iorque, mas desde pequeno vive no Rio de Janeiro. Em 2003 formou-se em desenho industrial pelo Departamento de Artes & Design da PUC-Rio. Tendo realizado cursos de gravura, ilustração, caligrafia experimental e computação gráfica, Mateu desenvolveu um estilo próprio de ilustração e grafite, que podem ser encontrados pelos muros e galerias do Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Paris, Lisboa e EUA. O trabalho de Mateu discute com um processo de democratização da arte, ao ir além dos limites formais e culturais, convertendo o espaço público em opção de espaço estético. A arte de Mateu revela uma realidade que vivemos e não percebemos, ativando nossa memória e sensibilidade através de sua poética crítica e conceitual.

 

Repletos de referências do cotidiano urbano, seus grafites sinalizam uma insistente necessidade de humanização da cidade. Os tentáculos, quase sempre presentes no trabalho de Mateu capturam o espectador e o transporta para um mundo de superposições e signos gráficos recortados de elementos do mundo real com caráter lúdico: selos, cartas e manuscritos, gotas, nuvens, flores. O resultado é uma colagem de pedaços de memórias que despertam nosso olhar, afirmando sua qualidade etérea.  Com o grafite passando por uma fase de revitalização e rejuvenescimento, artistas como Mateu tornaram-se muito mais experimentais, com o uso de diferentes suportes e outras formas de aproximação do espaço público. O cruzamento da linguagem gráfica da street art com o mundo da publicidade comercial resultou num enorme incremento no design gráfico e na moda de inspiração urbana. Isto possibilitou a inserção da qualidade gráfica do traço de Mateu no repertório visual de diversos segmentos: estamparias, painéis e vitrines, na área editorial em revistas e capas de livros, entre outros. Desenvolveu projetos para marcas como Adriana Barra, Cantão, Clube Chocolate, Converse, Editora Abril, Editora Record, Brasil Telecom, Rede Globo, W/Brasil, Claro, PUC, entre outros.  Sempre aliando a produção artística ao design gráfico, de modo que não exista limite entre uma técnica e outra, Mateu reafirma a natureza do grafite como uma marca, uma inscrição no mundo.

 

 

De 05 a 26 de setembro.

 

Andre Griffo, primeira individual

A primeira exposição individual de André Griffo que recebeu o nome de “Reúso e Retardo”, apresenta três objetos, três desenhos e duas pinturas, e acontece na Galeria Athena Contemporânea, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, com curadoria da expert Vanda Klabin. O artista utiliza troncos secos, crânios de boi e patas de porcos em seus trabalhos.  Isso se deve ao fato do crescimento na fazenda em Barra Mansa, onde convivia com animais e o vasto maquinário de seu pai, que colecionava ferramentas de todo o tipo, o que remetem a ele  e à Arquitetura. André vem se dedicando às artes plásticas em seu atelier em Barra Mansa e as recordações de sua infância são temas recorrentes em suas obras.  Arquiteto de formação, André Griffo cria uma mitologia individual ao se nutrir de sua própria experiência.  Utiliza um vocabulário muito expressivo no seu procedimento artístico através da adoção de objetos do cotidiano, construído em consonância  com materiais  industriais.  Seu trabalho  explora  temas que envolvem uma parceria complexa entre o homem e a natureza, objetos transfigurados  que se referem a experimentos pessoais impregnados de uma carga psicológica. Isso ocorre ao incorporar a subjetividade no seu plano visual  e utilizar uma fusão de diferentes elementos como animais,  grades, lanças e armas medievais,  colunas de ordem gregas, capacetes, entre outros.

 

O artista cria núcleos significativos que são incorporados ao seu trabalho, ao manipular imagens pré-existentes na busca  de  uma interlocução  incessante de  diferentes elementos, encontrados nas lojas de materiais  de construção  e de ferro velho. Suas  obras remetem aos vestígios do universo urbano e rural,  onde o artista acrescenta valores estéticos aos fragmentos e aos objetos, elementos essenciais para  a sua composição de trabalho.  André Griffo cria um repertório plástico que incorpora  uma subjetividade no plano visual ao reificar e  alterar  a forma da natureza dos objetos, A partir da moldagem de alguns objetos,  preservada no sal grosso  e devidamente  perfuradas, realiza a  edição de fragmentos de um corpo animal , que toma uma forma predominante  como uma matriz que o artista reproduz na forma  original, quase como um carimbo em série e  reativadas em outros territórios.

 

Na escala expansiva da superfície  da tela,  a sua pintura é concebida em várias camadas, sobreposições  quase monocromáticas e adquirem  uma opacidade onde o efeito da pincelada, pelo uso da tinta acrílica, vai sendo aos poucos apagada, esvanecida,  como algo prévio que precisa ser escondido. As imagens se acumulam na superfície da tela, sem hierarquia  ou unidade de tempo, mas com diferentes  significados entre si. Existe ainda  a presença de uma troca entre  diferentes linguagens e procedimentos  como o desenho,  a pintura e escultura.  A engenhosidade  dos desenhos prévios  é um elemento importante  para o resultado estético de sua obra.

 

A especialização em pequenos estudos minuciosos, evidenciam  trabalhos que saem uns dos outros e que adquirem caminhos diferentes. Nessa   ambiguidade existente nas superfícies planas  e no volume escultórico, predomina uma independência  dos elementos entre si, uma disjunção entre as partes, que se deslocam com acréscimos de novos elementos  na forma tridimensional, atrav;es de mecanismos duchampianos de apropriação de objetos existentes. Na  sua edição de fragmentos de um corpo,  seja de chifres  ou patas de porco suspensos sob tensão, calibradas e  chumbadas  por cabos de aço e bases de concreto – o artista tenta recuperar a intensidade da obra, o volume desse corpo dentro do espaço, e agora  exibe  o seu conflito de forças, interagindo na relação com o espaço da galeria  e seus componentes: desenha, disseca  e articula  a  relação  entre as peças,  traz uma linha de força que passa pela roldana  e pesos  como pontos de força que são devidamente distribuídos. O artista interage com o espaço da galeria e os campos de força ganham potência, tanto  no campo pictórico  como no espaço escultórico. Esses fragmentos  do corpo são o agente do  espaço, presença  enigmática,  que tecem um imprevisível diálogo visual, um sistema de signos que necessita ser ainda decifrados.

 

 

Sobre o artista

 

Admirador de Francis Bacon, Luiz Zerbibi e Adriana Varejão, André Griffo iniciou sua carreira profissional como arquiteto. Durante os cinco anos em que atuou na área, foi, cada vez mais, ouvindo seu feeling direcionando-o a trilhar o caminho das artes. O contato e conhecimento sobre o assunto durante a faculdade fez com ele repensasse o que gostaria de realmente de se doar.  Além disso, segundo Griffo, o trabalho como artista faz com que ele possa se permitir à uma abrangência de ideias muito superior e infinita, saindo do campo específico. André decidiu se especializar e foi atrás de cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage comandados por artistas consagrados como Anna Bella Gieger, além de ter sido aluno dos críticos e curadores Fernando Cocchiarale, Daniela Labra e Marcelo Campos. Durante seu crescimento como artista, Andre participou de uma série de salões de arte pelo Brasil.

 

 

 De 05 de setembro a 05 de outubro.

 

Beatriz Milhazes no Paço Imperial

Depois de 11 anos sem expor no Rio, sua terra natal, e após comprovada consagração internacional, a artista plástica Beatriz Milhazes, apresenta mais de 60 obras (pinturas, colagens e gravuras) na exposição denominada “Meu Bem”, atual cartaz do Paço Imperial, Centro, Rio de Janeiro, RJ. A exposição, uma panorâmica de suas obras a partir de 1989, é composta por trabalhos cedidos por colecionadores e museus internacionais e obedece organizaçção cronológica sob a curadoria do crítico francês Frédéric Paul.

 

A mostra reveste-se numa boa oportunidade para apreciar os renomados arabescos, circulos, mandalas e flores harmonicamente criados pela artista nos últimos anos, formas e signos que estabeleceram e destacaram sua obra; uma festa de cores que evoca – sem folclore – o Carnaval e a luminosidade tropical. A artista exibe, ainda, um grande móbile concebido exclusivamente para esta ocasião. De acordo com o curador, Beatriz Milhazes “…reivindica laços fortes com a modernidade europeia e está em pé de igualdade na cena contemporânea, na qual abala os códigos muitas vezes pouco sábios da abstração”.

 

Até 27 de outubro

A arte de Pietrina Checcacci

29/ago

A exposição “Pietrina Checcacci – Nuvem” está em cartaz na Galeria BNDES, Centro Rio de Janeiro, RJ. Trata-se de um momento singular na carreira da artista que, através desta exposição, exibe uma panorâmica de seus trabalhos distribuídos entre pinturas, desenhos e esculturas. Desde o início de sua vida profissional a artista manteve o corpo humano como signo referencial de sua obra e o momento atual é uma reflexão absoluta sobre seus últimos trabalhos cujo título claramente indica ser uma passagem, uma nova fase, seja de balanço e/ou novos caminhos pictóricos.

 

A palavra da artista

 

Fazem 6 anos desde a última exposição que fiz no Rio de Janeiro na qual completei o meu depoimento ao mundo em 50 anos de labor. O tema principal e sempre: o ser humano: vida/morte – prazer /dor. Desde 2012, graças à casualidade mágica que impulsiona os artistas, comecei a trabalhar em branco e preto numa sequência que chamo NUVEM. E como nuvens seguiam aleatórias na direção que elas exigiam, além de qualquer racionalidade. Deixei que me levassem aonde quisessem ir. Só agora descobri que com elas debrucei-me sobre os 55 anos do meu trabalho de arte onde coerência, liberdade e meticulosos cuidados artesanais foram a diretriz. O que faço necessita de silêncio e solidão para germinar refletir e comentar o mundo: tarefa da arte.

 

Texto de André Seffrin

 

A TÚNICA INCONSÚTIL DE PIETRINA CHECCACCI

 

Nas sucessivas séries de pinturas, serigrafias, esculturas ou múltiplos de Pietrina Checcacci nos defrontamos com a bela aliança entre domínio técnico e arte de amar, algo limítrofe ao que Carlos Drummond de Andrade soube dizer, e com ironia subjacente, no poema “A paixão medida”. Paixão sensual que, em Pietrina, pode eventualmente transformar-se em visceral e agônica, nesse caso mais próxima talvez da poesia de Jorge de Lima. O que equivale a dizer que a obra plástica de Pietrina se desenvolve às vezes em águas turbulentas, em territórios eruptivos, em espaços de inesperados e recônditos esplendores. Não por acaso, como se pode concluir, seu universo se mantém tão próximo da poesia e dos poetas. E ao erigir corpo e cidade numa única e vária paisagem metafísica, Pietrina acaba por assumir um caminho não só estético mas também ético, à beira das tantas descobertas científicas que em medidas iguais nos fascinam e fragilizam. Em cada linha ou escala cromática, em cada sugestão alegórica ou simplesmente jocosa, Pietrina cria suas formas profusas que ora se auto-referem, ora se desdobram a partir de uma única proposta, de memória ancestral e labor obsessivo. Nos rastros de um título famoso de Roland Barthes, é como se o artista andasse sempre e sem descanso em busca dos fragmentos de um discurso amoroso. Variações sobre o mesmo tema que, ao longo dos anos, cambiantes e crescentes, mantiveram-na incorruptível e adepta de uma arte realizada sem amarras, medos ou eventuais fugas. E é claro que esse universo bem nutrido e dinâmico, impulsionado pela raiz dos símbolos do viver, do amar e do criar, é seara de poucos artistas. Agora, em outro desdobramento não menos telúrico de sua vastíssima obra, e como antes, na série “A criação hoje”, de 2007, Pietrina novamente evoca nossa gênese de modo um tanto insólito e inquietante.  Como na série anterior de tenuíssimas rosas ou rostos estranhos, o acento dramático se tornou mais impactante. Vultos suspensos em sombras uterinas, seres semoventes em improvável solidão, início e fim de retorcidos périplos terrestres. E aqui a aproximação se dá com um dos títulos seminais de outro grande poeta, Cecília Meireles – Solombra. Sol e sombra ou, quem sabe, o inominável. Como se, ao se afastar um pouco da sensualidade e do erotismo que a notabilizaram nos anos 70 e 80, Pietrina de repente se defrontasse com um mundo mais áspero e enigmático. E é mesmo um mundo estranho às festas humanas que se entremostra nestas telas cheias de luz e sombra. Como tatuagens de um inframundo, sem antes e sem depois, à mercê do acaso, esvaindo-se em distâncias. Diz Cecília: “Há mil rostos na terra: e agora não consigo recordar um sequer”. Um mundo de essências e pouca transparência, que não se sabe dentro ou fora, e sem nenhum conforto. Como se deu no final da série “Rosas”, em 2009, o DNA como reflexo ou duplicidade (espelhos líquidos), possíveis fetos ou nuvens sugerindo a anatomia humana, arco-íris ou amebas, tudo sem os véus da alegoria, espécie de errância amorosa ou catarse. No insulamento do corpo na paisagem, no seu exílio, temos o sangue que se faz bruma e sombra. Ventres, óvulos, montanhas, águas, panos, frutos, planetas, estrelas, pulsações celestes, sem princípio nem fim. Preponderam o preto e o branco nestas inesperadas nebulosas, formas primordiais do cosmos ou da gênese humana, amplamente analisada ou sugerida em tudo que Pietrina compôs desde sempre. Vermelho sanguíneo, negro e cinza são cores estabilizadas em suas incessantes mobilidades plásticas, desde os recortes de corpo fossilizados do final dos anos 70 ou mesmo antes, desde a fase Evaterra, por volta de 1973. No começo foi o pop, o ânimo fotográfico, a vinculação a um certo expressionismo, e o breve comprometimento político, habitado aqui e ali pelo lúdico, o humorístico e até o kitch da cultura de massa que aos poucos desapareceu em favor de um denso comprometimento humano, pleno e soberano. E foi esse comprometimento humano que a encaminhou para uma exuberante (e exaltada) sensualidade erótica ainda muito pouco estudada pela crítica. Um mundo anônimo (de corpos geralmente sem rosto) criado aos pedaços e que mais se revelou, a caminho da abstração, no sinuoso de frestas, pregas e fossos, angulosidades, sugestão de volumes que acabou por fim desembocando na tridimensionalidade. Em 1977, em entrevista a Antonio Hohlfeldt, Pietrina admitiu que existe em sua pintura um sentido escultórico de massas e volumes, aquela “inevitável dimensão escultórica” que Roberto Pontual capturou em 1978. No entanto, aqui e agora, o artista alcança o grau zero de suas pesquisas, uma lição das cores de serenidade quase cruel. O tênue rosa, o cinza fugidio e certos azuis profundos da série das rosas “escandalosamente” eróticas já anunciavam delicadas superposições de galáxias, buracos negros, confins do universo que pulsam dentro de cada um de nós, no que somos em nossos corpos e em nossa luz. Sim, como disse certa vez outro poeta, Lêdo Ivo, “somos corpos, somos os nossos corpos”, seja nos longes da paisagem que se faz corpo ou no corpo que a sugere, à flor da pele. Uma paisagem inaugural porque são inaugurais todas estas descobertas imediatamente transpostas ou traduzidas numa arte que se manifesta coesa, inteiriça como um continuum vital, uma túnica inconsútil.

 

Até 18 de outubro.

Dois livros de arte

23/ago

Marta Martins: Narrativas ficcionais de Tunga

 

O lançamento do livro da Marta Martins, lançamento da Editora Apicuri, será lançado com palestra da autora no Salão Nobre do Parque Lage, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ, às 18 horas do dia 06 de setembro.

 

O livro “Narrativas ficcionais de Tunga” é adaptação da tese de Marta Martins, professora de desenho, artista, teórica e crítica, e, mais recentemente, fotógrafa. Marta se debruça sobre as obras de Tunga, artista que “mantém um alto nível de qualidade formal em seus trabalhos, não importando a natureza dos materiais utilizados, e (que) conquistou amplo espaço de atuação, tornando-se um dos nomes mais reconhecidos da arte brasileira no exterior”. A proposta da autora “ao incursionar por suas obras de distintos modos” é mostrar que o trabalho do artista, por meio de diversas experimentações estéticas, gera toda sorte de enigmas, introduzindo-se também noutras instâncias teóricas, como a psicanálise e as ciências sociais. Suas esculturas, instalações, vídeos, textos, desenhos, fotografias e até as pessoas utilizadas como mais um material de trabalho em suas instaurações, permitem configurações abertas em cada montagem. O espaço de tensão formal relacionado com questões próprias das artes visuais abriga ao mesmo tempo, em sua obra, uma série de desvios e licenças de cunho alegórico e ficcional, além de um explícito hibridismo nas suas formas e conceitos. Assim, materiais como seda, lâmpadas, cobras, metais, ossos e agulhas, somados a corpos humanos, textos e filmes, formam o vertiginoso e mutante universo narrativo do artista. Nada parece ser definitivo, nem mesmo neutro ou vazio, pois a peculiar rasura com a qual a natureza da linguagem se constitui é dobrada e disposta em camadas ao longo de seu inesgotável processo. Precisão teórica, abordagem aguçada e, principalmente, admiração pela produção de Tunga se combinam e nos proporcionam, por meio de um texto inteligente, uma reflexão perspicaz e apaixonada a respeito das “narrativas ficcionais” do artista plástico.

 
Sobre a autora

 

Marta Martins é ensaísta e fotógrafa. Nasceu em Santana do Livramento, RS, em 1962, vive e trabalha desde 1983 em Florianópolis, SC. Possui graduação em Licenciatura Plena em Educação Artística pela Universidade do Estado de Santa Catarina (1988), mestrado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1995) e doutorado em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (2005). Atualmente é professora–titular da Universidade do Estado de Santa Catarina. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Artes Plásticas, atuando principalmente nos seguintes temas: Desenho, Teoria da Modernidade, Literatura, Arte Contemporânea, Teoria da Imagem, História e Crítica da Arte, e Fotografia.

 

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Lygia Pape e Hélio Oiticica por Fernanda Pequeno

 

A curadora e crítica de arte Fernanda Pequeno lança no dia 07 de setembro, no Armazén 1, Pier Mauá, Praça Mauá, Rio de Janeiro, RJ, livro com o selo da Editora Apicuri sobr a obra dos artistas Lygia Pape e Hélio Oiticica.

 

Fernanda Pequeno parte de conversações e fricções entre as poéticas dos artistas Hélio Oiticica e de Lygia Pape para frisar semelhanças, acentuar diferenças e apontar aproximações e divergências entre as duas linguagens. Uma das questões que permearam toda a análise foi a existência de conflitos políticos e sociais — por conta do momento político dos anos 1960-70 no país — que inter­feriram e nortearam a produção de ambos os artistas, que introjetaram certa contradição ou ambiguidade. Pape e Oiticica optaram por um viés de produção altamente experimental, e seu caráter político e trans­gressor configurou-se pela negação do que estava instituído e por uma confiança no engajamento da jovialidade brasileira abrindo possibilidades de escrita de uma ou mais histórias, mesmo que fosse necessário herdar e deglutir influências estrangeiras.

 

A própria autora atribui a sua escolha por Lygia Pape e Hélio Oiticica quase que como uma intuição, espécie de “afinidades eletivas”. Apesar de Hélio e Pape já terem sido muito revistos pela história da arte moderna, não deixa de ser legítimo buscar possibilidades de novas leituras, principalmente na obra do Hélio. E foi isto que Fernanda conseguiu, ao rever a produção dos dois artistas.

 

Sobre a autora

 

Fernanda Pequeno é curadora, crítica de arte e professora de Artes Visuais e História da Arte do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp/Universidade do Estado do Rio de Janeiro — Uerj). Doutoranda em Artes Visuais, na linha de pesquisa História e Crítica da Arte, pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas-Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde foi bolsista Capes/UFRJ. Realizou estágio de doutorado (bolsa-sanduíche Faperj) no Research Centre for Transnational Art, Identity and Nation (TrAIN — Chelsea College of Art & Design, Londres). É mestre em Artes pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Uerj. Vem realizando curadorias e publicando textos em revistas acadêmicas, magazines, folders e catálogos de exposições desde 2002.

 

 

Lenora de Barros na Laura Alvim

Umas e Outras”, da artista paulistana Lenora de Barros, é a exposição que a Galeria Laura Alvim, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, inaugura, sob curadoria de Glória Ferreira.

 

Nela a artista apresenta 65 colunas de jornal realizadas na década de 1990, além de dois vídeos inéditos em preto e branco, intitulados “Jogo de Damas” e “Em si as mesmas”, e uma intervenção sonora, “Duplicar Imagens”. Entre 1993 e 1996, a artista assinou uma coluna experimental, publicada aos sábados, no “Jornal da Tarde”, de São Paulo, sob o título de “… umas”. Nesse espaço nasceram obras e ideias que se transformariam em vídeos e fotoperformances autônomos nos anos seguintes. Depois de mostrar 13 dessas colunas em uma vitrine, na Bienal de Lyon, França, em 2011, Lenora decidiu agora emoldurar e expor um conjunto maior, extraído de seu arquivo pessoal.

 

Nas colunas, que eram uma espécie de blog “avant la lettre”, Lenora, entre outros experimentos, dialogou com trabalhos de diversos artistas. Posteriormente ela fez um recorte dessas “conversas” envolvendo temas femininos ou obras de artistas como Lygia Clark, Yoko Ono, Cindy Sherman, Annette Messager e Méret Oppenheim. Essa seleção deu origem a um livro, intitulado “Jogo de Damas – Crítica de Arte – Livro Primeiro”, ainda inédito, cujo protótipo estará exposto na Laura Alvim, em versão bilíngue, inglês e português.

 

O livro foi o ponto de partida para os dois vídeos inéditos, com direção de David Pacheco, que estão na exposição.
“Umas e Outras” é uma oportunidade de acompanhar o processo criativo da artista, ao longo de três anos, num espaço que funcionava como uma espécie de laboratório ou ateliê em pleno jornal. Segundo a curadora Glória Ferreira, esta individual “cria uma situação em que a artista se desdobra em lenoras, jogando em múltiplas posições, transitando em várias ‘elas’.”

 

As obras

 

No vídeo intitulado “Jogo de Damas” o livro de mesmo título serve de roteiro de leitura para performances vocais realizadas por Lenora e foi concebido em formato de tríptico para projeção simultânea em três paredes.

 

O vídeo “Em si as Mesmas”, situado à entrada da mostra, tem seu título pinçado de uma coluna onde a artista comenta uma fotografia de 1925, de autor desconhecido, das siamesas, as irmãs Hilton. Foi concebido para dupla projeção, em duas paredes opostas. Nele Lenora joga damas consigo própria. Em uma tela, ela move as pedras brancas e na outra, as pretas, em uma espécie de “jogo infinito, sem ganhador nem perdedor”, diz Lenora.

 

“Jogo de Damas” e “Em si as Mesmas” serão exibidos com o som aberto e também dialogam entre si no espaço expositivo. Eles têm um tratamento específico que faz ressaltar o som das peças no tabuleiro, os ruídos da movimentação corporal da artista, gerando atmosferas sonoras envolventes.

 

Voltada para a rua, em frente à Galeria Laura Alvim, está a intervenção sonora “Duplicar Imagens”, em que se ouve a artista oralizar, com voz infantil, a frase “Duplicar imagens é multiplicar ou dividir ideias?”, que se repete em looping, assim como os vídeos mencionados acima. O texto dessa performance vocal também nasce em “…umas”, em uma coluna de 1994, a partir de um autorretrato de Magritte. A performance vocal, gravada em 2011, tem tratamento sonoro de Cid Campos.

 

 

Sobre a artista

 

Lenora de Barros nasceu em São Paulo, em 1953. Formada em linguística pela FFLCH/USP, seus trabalhos se apropriam do vídeo, da performance, da fotografia e da instalação. Sua produção transita entre a palavra e a imagem, e explora os aspectos visuais, verbais e sonoros da linguagem. A fotografia e o vídeo são comumente utilizados como forma de documentar performances encenadas diante da câmera. Lenora de Barros tem obras em coleções públicas e particulares no Brasil e no exterior: Museu d’Art Contemporani de Barcelona, Daros-Latinamerica (Zurique e Rio de Janeiro) e Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Participou como artista-curadora da “Radiovisual”, na 7ª Bienal do Mercosul – Grito e Escuta (2009).  Entre as recentes mostras e atividades, destacam-se a 17ª Bienal de Cerveira, em Portugal, “Para (Saber) Escutar”, na Casa Daros Latinoamerica (Rio de Janeiro, 2013); III Mostra do Programa de Exposições 2012 (Centro Cultural São Paulo, 2013); “Circuitos Cruzados: o Centro Pompidou encontra o MAM” (Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2012); “Sonoplastia” (Galeria Millan, SP, 2011; 11ª Bienal de Lyon – “Nasce uma terrível beleza” (2011) – onde participou com a  instalação audiovisual  “O encontro entre Eco e Narciso”, e “Revídeo” (Oi Futuro, RJ, 2010).

 

Até 27 de outubro.

 

Sérvulo Esmeraldo no Rio

20/ago

A Pinakotheke Cultural, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ, apresenta a exposição “Sérvulo Esmeraldo – Pinturas, desenhos, gravuras, objetos, esculturas e excitáveis”, que reúne 70 obras, tanto históricas como inéditas e recentes, do artista cinético nascido no Crato, Ceará, em 1929, e que solidificou sua trajetória em Paris, onde residiu de 1957 a 1980. O artista participou recentemente da monumental exposição “Dynamo – A century of light and motion in art, 1913-2013” realizada de abril a julho último no Grand Palais, em Paris e ao lado de 150 artistas como, dentre outros, Le Parc, Morellet, Soto, Dan Flavin, Duchamp, Hans Richter, Calder, Rodtchenko e Anish Kapoor. A mostra na Pinakotheke ganha maior relevância pelo fato de nunca ter sido realizada na cidade uma grande antologia da obra do artista, e também por ter passado mais de 20 anos de suas individuais na cidade. A mostra também apresentará maquetes de esculturas inéditas do artista, além de vídeos, fotos, livros e documentos. A exposição, que tem curadoria de Max Perlingeiro, vem sendo planejada há mais de uma década. Sérvulo Esmeraldo tem sido homenageado em importantes museus no Brasil e no exterior.

 

 

Produção inédita

 

Aos 84 anos, Sérvulo Esmeraldo continua ativo. “Seguindo a velha tradição dos grandes escultores, produziu ao longo do tempo centenas de maquetes de esculturas que, um dia, seriam executadas. A partir de 1976 suas esculturas monumentais saem do ateliê para o espaço urbano. De volta ao Brasil, fixa residência em Fortaleza em 1980 e lá permanece, até hoje, produzindo, com o mesmo vigor da juventude, suas novas esculturas e objetos, obstinado pela “invenção” e pelo desenho”, conta o curador Max Perlingeiro.

 

 

Texto do curador

 

A trajetória do artista Sérvulo Esmeraldo seguiu um padrão adotado pela maioria dos grandes artistas que têm a sua origem fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Do Ceará, a partir da primeira metade do século XX, vieram: o pintor e professor Raimundo Cela (1890-1954), prêmio de viagem à Europa no Salão Nacional de Belas Artes em 1917 e introdutor do ensino da gravura em metal no Brasil; o paisagista Vicente Leite (1900-1941) – o melhor amigo de Candido Portinari na Escola Nacional de Belas Artes -, também prêmio de viagem à Europa em 1940, porém não usufruído devido à guerra; e Antonio Bandeira (1922-1967), que vem para o Rio de Janeiro e, logo em seguida, em 1946, vai residir em Paris, como bolsista do governo francês, lá permanecendo até a sua morte, em 1967. Naquela época Paris era o centro das atenções dos artistas e intelectuais. Nas décadas de 1950 e 1960, a arte brasileira passa por grandes transformações. Nesse período, os artistas saem do Brasil em busca de formação e vivência em um novo ambiente. A maioria tem como seu destino final a capital francesa, e alguns, Nova York. Por questões políticas ou artísticas, estavam em Paris, nesse período: Lygia Clark (1920-1988), Sergio Camargo (1930-1990), Flavio-Shiró (1928), Rossini Perez (1932), Arthur Luiz Piza (1928) e Sérvulo Esmeraldo (1929), entre outros. Sérvulo, após uma breve experiência no meio artístico em São Paulo (1951-1956), viaja para Paris em 1957, como bolsista do governo francês, e lá reside até 1980, sempre participando ativamente da vida artística no Brasil. Exímio gravador, participa de inúmeras exposições individuais e coletivas, em instituições públicas e privadas. Participa também da V Bienal Internacional de São Paulo com grande destaque. Em 1976 é editado por Guy Schraenen o manual Método prático e ilustrado para construir um excitável, volume 8 da Série ColleXion, hoje objeto de desejo dos grandes colecionadores. Em 2010 é convidado para uma grande exposição, Les Excitables, apresentada na Maison Européenne de La Photographie com texto de Matthieu Poirier. Seguindo a velha tradição dos grandes escultores, produziu ao longo do tempo centenas de maquetes de esculturas que, um dia, seriam executadas. A partir de 1976 suas esculturas monumentais saem do ateliê para o espaço urbano. Em 1980 fixa residência em Fortaleza e lá permanece, até hoje, produzindo, com o mesmo vigor da juventude, suas novas esculturas e objetos, obstinado pela “invenção” e pelo desenho.

 

Esta exposição, planejada por mais de uma década para ser apresentada no Rio de Janeiro, tem caráter retrospectivo, mas não pretende esgotar o assunto. Complementam a exposição maquetes de esculturas inéditas, livros de artista, os originais para a publicação Suíte Catalana/Courbes, variações sobre uma curva, com texto-poema de Jean-Clarence Lambert, além de imagens e documentos sobre a sua vida artística. Vídeos e fotografias, executadas entre os anos 1960 a 2011, cabendo destacar a série de fotos, algumas inéditas, feitas em Paris por Alécio de Andrade (1938-2003), e o vídeo Excitable, de autoria de André Parente e Katia Maciel.

 

 

Sobre o artista

 

Sérvulo Esmeraldo já recebeu homenagens em espaços como a prestigiosa Maison Européenne de la Photographie, em Paris, em 2010, e na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2011. Possui obras em importantes coleções privadas e públicas do Brasil e do exterior, como Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal; Fundación Cisneros, Caracas, Venezuela; Maison Européenne de la Photographie, Paris, França; MAC-USP, São Paulo; Museu de Arte Contemporânea, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza, CE; MAM-RIO; MASP, SP; MAM, Bahia; Museu Oscar Niemeyer, MON, Curitiba; Pinacoteca do Estado de São Paulo, entre outras. O artista também possui diversas obras públicas, principalmente no Ceará.

 

 

De 04 de setembro a 13 de novembro.

 

Peças inéditas de Galvão

15/ago

A Galeria Marcia Barrozo do Amaral, Sopping Cassino Atlântico, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, abre sua sétima exposição em 2013 na qual exibirá 20 trabalhos inéditos de Galvão, executados em madeira de cedro e MDF, pintados em tinta acrílica ou na cor natural. Nesta mostra as obras chegam com mais cores, com mais aprofundamento.
Nesta exposição encontramos variações cromáticas da madeira. Como pinturas, essas obras possuem volume e textura, o que rapidamente faz com que se desloquem do plano para o espaço, ganhando uma condição objetual, pois problematizam a estrutura formal da pintura, quebram a moldura, e dialogam com a tridimensionalidade. São situações que fazem sua obra dialogar com Sergio Camargo, de quem foi assistente, ao mesmo tempo em que criam seu próprio caminho e história.

 

Com o eterno objetivo de melhorar, aperfeiçoar e transcender seu trabalho, Galvão mantém uma coerência em sua trajetória de mais de 40 anos, produzindo relevos em madeira, ora natural, ora pintada. Essas interferências na madeira causam luz, sombras, formatos e sensações no público. Ele sempre procura criar a estrutura e estruturar um tema em seu bucólico ateliê, em Nova Friburgo. O artista é um purista que introduz a poética da cor em uma linguagem ordenada, onde a razão-emoção permanece imbatível.

 

Nesta exposição encontramos variações cromáticas da madeira. Como pinturas, essas obras possuem volume e textura, o que rapidamente faz com que se desloquem do plano para o espaço, ganhando uma condição objetual, pois problematizam a estrutura formal da pintura, quebram a moldura, e dialogam com a tridimensionalidade. São situações que fazem sua obra dialogar com Sergio Camargo, de quem foi assistente, ao mesmo tempo em que criam seu próprio caminho e história.

 

Para Felipe Scovino, o desequilíbrio e a progressão dos seus blocos revelam um caráter de instabilidade e impermanência que faz com que sua obra adquira uma espécie de elasticidade orgânica. “São obras maleáveis para o olhar do espectador. Maleável para a sua fruição, o seu jugo e o seu prazer. O esforço para completar a ordem mobiliza o sujeito perante o desafio de uma obra íntegra, porém esquiva. Sua obra instala o transitivo ou o visível em constante alteração, pois seu compromisso é com a natureza infinita das coisas”, finaliza Felipe.

 

Sobre o artista

 

Galvão nasceu no Rio de Janeiro, 1941, começou seus primeiros estudos em pintura em 1951. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes da Universidade do Brasil, morou em Paris onde cursou na Sorbonne sociologia da arte com Jean Cassou e frequentou os ateliês de Sergio de Camargo, Vistor Vasarely e Yvaral. Entre suas exposições individuais estão a da Galeria Art to Desing, na Itália (2008), na Dan Galeria, em São Paulo (2008), Galerie Brasilia, Paris, 2007, Galeria Murilo Castro, BH, 2007, Galeria Syrus, Paris, 2004/05, e no MUbe, São Paulo, SP, 2004. O artista também participou de três Bienais em São Paulo, 1967, 1973, 1975. Desde 2004 participa anualmente do Realité  Nouvele, principal salão de arte de Paris.  Esta é a sétima vez que expõe na Galeria Marcia Barrozo do Amaral. Depois de alguns anos atuando como assistente do conceituado e inspirador Sergio Camargo, Galvão trilhou seu próprio caminho que fez com que suas obras estejam hoje nas principais coleções públicas e privadas no Brasil e exterior como no Centre Cultural I´Arsenal, França; Museu Satoru Sato, Japão; MOBIL MADI, Hungria; MAM-Rio; Museu de Arte Contemporânea de Niterói; Museu de Arte Moderna de São Paulo. Museu de Arte da Pampulha, BH; Museu do Artista Brasileiro, Brasília; MuBE, SP e Museu MADI, Ceará.

 

De 20 de agosto a 20 de setembro.

Arte Cinética

13/ago

Através da criteriosa seleção dos artistas representados e suas obras, e contando com grandes nomes da arte brasileira além da aposta em jovens artistas com trajetória emergente, Anita Schwartz Galeria de Arte, Gávea, Rio de Janeiro RJ, investe na divulgação e propagação da cultura brasileira. Dando curso à programação 2013, agora o artista escalado é Abraham Palatnik, pioneiro da arte cinética no Brasil. Abraham Palatnik apresenta nesta exposição individual 31 trabalhos — dos quais quatro são “Objetos cinéticos” e apenas um “Aparelho cinecromático”.

 

 

O artista por Felipe Scovino

 

Pintura em movimento

 

Em recente entrevista ao autor, Palatnik afirmou que era essencialmente um pintor. Coloca-se, portanto, uma das questões mais pertinentes em sua obra: propor ao espectador que ele está diante de uma pintura sem anular a ideia da escultura, principalmente nos casos dos Aparelhos cinecromáticos (produzidos a partir de 1951) e dos Objetos cinéticos (produzidos a partir de 1964). Sua obra gravita em um limite, em uma linha tênue entre esses dois suportes.

 

Limites, passagens e invenções são circunstâncias muito próprias e constantes na obra do artista. Quando volta ao Brasil, em 1948, depois de morar na Palestina por 15 anos, um dos seus tios cede um cômodo em um apartamento em Botafogo, que se transforma no seu ateliê. Provavelmente por conta dos estudos envolvendo mecânica e física, assim como as aulas de arte (todos desenvolvidos na Palestina) e da qualidade típica de inventor, Palatnik começa a produzir uma das obras mais importantes da arte cinética: o Aparelho cinecromático. A primeira obra dessa série é fruto de uma tecnologia que variava entre a intuição e os anos de aprendizado de física, feita com materiais baratos e efêmeros, com lâmpadas articuladas por motores e comandadas por uma espécie de CPU – que executava os tempos e as sequências de cada foco luminoso da obra – construídas pelo próprio artista. Essa obra expõe claramente os caminhos que ele adotaria: mesmo partindo de uma forma tridimensional, nunca deixou de pensar como um pintor. O movimento, a dinâmica e o deslocamento tanto do objeto quanto do espectador são características centrais de sua obra, que, mais do que nos entreter, nos “hipnotiza” com os desenhos construídos no espaço e, com o ritmo – quase como uma dança –, em particular nos Objetos cinéticos, embalado pelo ruído da passagem de tempo emitido pelos seus mecanismos internos. O modo como elabora arte, tecnologia e cinetismo é muito particular, pois se faz presente pela organicidade dos materiais e pela delicadeza, muito vezes beirando o improvável, como é o caso dos relevos em jacarandá, nos quais os veios da madeira, dispostos em filetes e colocados lado a lado, produzem um efeito de expansão e movimento que faz com que uma onda vibratória siga para além do espaço restrito da tela ou da madeira. Por fim, sua vontade construtiva se manifesta no desejo bauhasiano de articular arte, sociedade e indústria, que pode ser observado nas poltronas, mesas, móveis, jogos e pequenos animais feitos em acrílico e tinta entre as décadas de 1950 e 1990. É interessante perceber que mesmo produzindo os móveis, o artista não deixou de exercer a pintura, já que feita em vidro adornava esses móveis e foi um passo importante para a série seguinte do artista, quando nos anos 1960 começou a utilizar o jacarandá e o cartão como meios de produção pictóricos. Esse caráter inventivo e experimental também está presente na série de pinturas com barbante e tinta acrílica realizada a partir de meados dos anos 1980. A pintura ganha um leve volume que auxilia na formação de um efeito ótico que equilibra a “tecnologia precária” do barbante com uma pesquisa rigorosa e sensível sobre o cinetismo e as possibilidades de expansão da forma e da cor através de um duplo movimento (das linhas e do espectador). Em vários momentos, percebemos um equilíbrio perfeito entre cores que são altamente dissonantes. Em uma das obras da série Permutáveis, estão integradas e associadas um núcleo em rosa, outro em verde, e diferentes módulos permeados por tons de cinza. A harmonia e a construção do ritmo se dão na forma como são suavizadas essas gritantes dissonâncias cromáticas.

 

O segundo momento de um paradigma em sua carreira, que, sem dúvida alguma, tem uma relação intrínseca com o Cinecromático, no sentido de iniciar sua pesquisa com o cinetismo, é o convite que recebe, ainda como pintor figurativo, de Almir Mavignier para visitar o Hospital Psiquiátrico Pedro II sob a coordenação de drª Nise da Silveira. Trava contato com a produção dos pacientes e fica impressionado com a qualidade das pinturas, especialmente com as obras de Raphael Domingues e Emygdio de Barros, que produziam imagens tão densas sem jamais terem passado por uma escola de artes: “Pensava que eu era um artista formado. Resolvi começar de novo. A disciplina escolar, de ateliê, não servia para mais nada”.[3] Foi o momento de abandonar a figuração, mas não a pintura.
Outra circunstância de passagem é quando Palatnik transita dos Objetos cinéticos – que se movem por circuitos próprios e independentes da ação do espectador – para uma participação virtual, na qual o corpo do sujeito é elemento fundamental para se perceber as distintas qualidades cromáticas, cinéticas e, por conseguinte, físicas que a obra promove. Diante de seus relevos e de suas pinturas, para conhecer todas as suas imagens ou possibilidades ilusórias – as variações de enquadramento e foco –, o espectador precisa experimentar um mínimo de movimento. A obra parece expandir-se e contrair-se, pois são criadas imagens virtuais que redimensionam o espaço a nossa volta. Guardadas as suas devidas especificidades, os Aparelhos cinecromáticos são gerados em um momento no qual a pintura amplia o seu limite e conceito. Se a pintura atravessava novos procedimentos para a sua apreensão e comunicação ao estabelecer diálogos intensos com a performance nos anos 1950 e 60, como foram os casos do dripping de Pollock e as antropometrias (1960) de Yves Klein, a ampliação do termo “pintura” em Palatnik se deu a partir de uma matriz construtiva e tecnológica, mas nem por isso menos intensa e importante que a vivenciada por esses artistas. Por outro lado, não podemos esquecer a relação formal dos Cinecromáticos e dos Objetos cinéticos com o campo escultórico, e como os Cinéticos parecem ser a estrutura interna, o “esqueleto”, dos Cinecromáticos. Ao fazer essa alusão, penso que Palatnik se distingue da tradição da op art e do cinetismo europeu, pela forma como constrói as suas obras: sempre pelo prisma da artesania. Sua “tecnologia” é composta de barbantes, lâmpadas, parafusos, e em alguns casos objetos mecânicos construídos por ele mesmo. Essa artesania própria o faz estar próximo da série Contínuo-Luz (c. 1963-66) de Julio Le Parc e do Penetrável (1967) de Soto, e não apenas pelo uso de materiais menos nobres associados à pesquisa cinética mas também pela economia de formas com que essa poética é regida.
Esta exposição apresenta também obras do artista pouco vistas pelo público. Desde um Relevo dourado passando por telas produzidas nos anos 1990 nas quais são aplicadas em sentido vertical finas camadas de cola sobre o plano, formando módulos de cor que transmitem um volume à pintura, um efeito semelhante ao que ocorre com a série Cordas. Em relação a esta série, há uma obra em especial que difere do conjunto mais conhecido ao ter a sua estrutura mais próxima de uma natureza com influência “africana”. Em um conjunto de três pinturas dos anos 1960, percebemos a mesma influência, e com um acento ainda mais totêmico em sua estrutura. É curioso perceber como a pesquisa com o cinetismo e o seu interesse pessoal por arte popular produziram uma série que diversifica os meios da pintura de matriz construtivista.
É importante ressaltar que a obra do artista obteve um lugar importante na passagem da modernidade para a contemporaneidade no país, no âmbito de suas pesquisas envolvendo pintura, tecnologia, escultura e design. Embora estivesse no seio da discussão sobre a chegada e, anos mais tarde, a maturidade da abstração geométrica (inclusive participando do Grupo Frente), Palatnik sempre quis se manter à margem de qualquer manifesto ou participação mais “política”. Ele, Almir Mavignier, Mary Vieira, Rubem Ludolf, entre outros, foram artistas que trilharam um caminho importante para a arte brasileira, em particular suas aproximações com a op art, o cinetismo e o design, mas que ainda merecem um estudo mais qualificado sobre as contribuições que ainda continuam realizando, no caso dos dois primeiros. Na virada dos anos 40 para os anos 50, em um rápido panorama, Mário Pedrosa defende a sua tese “Da natureza afetiva da forma na obra de arte”; Mary Vieira está realizando os seus Polivolumes e Palatnik, construindo o seu primeiro Aparelho cinecromático, sendo que a Bienal de São Paulo ainda nem existia. É fundamental destacar o pioneirismo desses artistas e, ao mesmo tempo, as bases para a modernidade nos anos 1950 (leia-se a maturidade da abstração geométrica, que foi e continua sendo um pensamento estético importante para a compreensão sobre as artes visuais brasileiras, e a institucionalização da arte por meio da inauguração dos museus de arte moderna e da própria Bienal), mas essencialmente o grau de invenção desses artistas que não foram apenas importantes para a produção nacional, mas ocuparam um lugar de destaque no cenário internacional, e juntamente com outros artistas sul-americanos, em particular os argentinos e venezuelanos, construíram uma produção de arte cinética tão qualitativa quanto qualquer produção europeia ou americana realizada no mesmo período.

 

 

 

Até 14 de setembro.