A NY de Ivan Pinheiro Machado

01/abr

Ivan Pinheiro Machado, pintor, arquiteto e fotógrafo, abre a exposição “O Mundo Como Ele Não É”, no Espaço Cultural Citi, Avenida Paulista, São Paulo, SP, com curadoria de Jacob Klintowitz. A mostra conta com 28 telas que reproduzem cenas da cidade de Nova York com exatidão e realismo.

 

A precisão da fotografia e o fascínio pessoal por grandes centros urbanos representam as maiores inspirações de Ivan, levando-o a recriar, em suas pinturas, todos os “cacos” cotidianos que se manifestam em placas, avenidas, becos, sinais, etc. “É tão forte o realismo das cenas urbanas de Ivan Pinheiro Machado que podemos não sentir que se trata de ficção. A sua obra tem a particularidade de uma delicada luz que a percorre e é quase despercebida.”, comenta o curador da exposição. Com o tema urbano, o artista registra uma existência visível em detalhes da megacidade: “Gosto dos contrastes, como dos “yellow cab” novaiorquinos contra o cinza da cidade. Curto os outdoors, as pontes, os edifícios, os engarrafamentos, os semáforos agrupados…”, nas palavras do artista.

 

Resultado de um desenvolvimento técnico que vive há quase 40 anos, Ivan Pinheiro Machado usa fotografias como ponto de partida para suas pinturas, seguindo uma estética realista, pautada em grafismos, e demonstrando domínio técnico singular. A temática de seu trabalho pode variar, mas sempre possui uma grande cidade como fundo, evidenciando as surpresas que as ruas e esquinas lhe oferecem. O essencial, para ele, são os detalhes da metrópole: a cor, a luz, o estranho, o inusitado, onde o ser humano atua como “presença ausente” na maioria das telas. “Eu gosto de partir de uma foto e transformá-la, propondo um ângulo intrigante, curioso e até dramático. Aí então o pintor é gratificado, pois as pessoas olham com espanto, como se fosse a primeira vez que estivessem vendo aquilo.”, conclui.

 

 

De 07 de abril a 06 de junho.  

Medos Modernos

27/mar

O Instituto Tomie Ohtake, Pinheiros, São Paulo, SP, promove a segunda edição de seu programa “Arte Atual”. Elaborado pelo Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake (NPC), foi concebido para promover exposições coletivas de artistas emergentes, em que projetos experimentais ambiciosos possam ser concretizados e apresentados ao público, contando, para isso, com o apoio ativo de galerias de arte presentes no país. Para esta segunda edição, o Instituto Tomie Ohtake apresenta Medos Modernos, exposição dos artistas Luiz Roque, Matheus Rocha Pitta e Nicolás Robbio.

 

Com curadoria do Núcleo de Pesquisa e Curadoria, “Medos Modernos” é uma exposição pensada a partir de entendimentos do que é o moderno – palavra-chave associada às transformações aceleradas desde meados do século XIX, com seus múltiplos desenvolvimentos científicos e sociais e implicações que vão desde a inovação e contraposição ao passado, passando pela industrialização e progresso, até a padronização e controle social resultantes do avanço tecnológico. O moderno – seja enquanto período histórico, sinônimo de vanguarda, tempo presente ou evolução – gerou um processo dúbio, em que há ora otimismo e entusiasmo ora dissintonia do indivíduo frente às facilidades, invenções e alienações de um vasto contexto.

 

As obras que integram a mostra “Medos Modernos” apontam para a permanência da ansiedade que surgiu com a modernidade, sem necessariamente citar as vanguardas do modernismo. Assim, reverbera processos que marcaram profundamente as estruturas sociais e psíquicas dos indivíduos, chegando ao extremo de quadros de ansiedade e neurose. Atualmente, os sintomas inerentes dessa civilização moderna seguem latentes na tensão e insegurança frente ao imperativo da produtividade e desperdício da economia capitalista, como se colocará em questão na instalação de Matheus Rocha Pitta; à necessidade de adequar-se a categorias e padrões identitários e comportamentais pré-estabelecidos, como problematizado pelo vídeo de Luiz Roque; e à imposição de sistemas de catalogação e normatização dos sujeitos, dos objetos e do espaço, como tensionado pela produção de Nicolás Robbio.

 

 

Artista e Obras

 

Luiz Roque, Cachoeira do Sul, RS, 1979. Trabalhando principalmente com fotografia e vídeo, Luiz Roque se apropria de elementos da cultura de massa e da mídia para levantar tanto questões identitárias e existenciais, quanto as diferentes formas de manifestações de poder. Muitas vezes o artista gaúcho propõe cenários artificiais, beirando a ficção científica, que apontam soluções para impasses e situações de conflito. Para “Medos Modernos”, Luiz Roque apresentará um desdobramento do seu projeto “Ano Branco”, apresentado e realizado na ocasião da 9ª Bienal do Mercosul, em 2013, que aborda a questão da transexualidade. Depois de quase um ano de pesquisas em colaboração com o Centro de Engenharia Mecatrônica da PUC-RS, o artista projetou um futuro no qual esse tipo de intervenção já tinha passado por uma batalha política de aceitação e institucionalização. O resultado é um filme que flerta com a ficção científica no qual uma mulher está sendo preparada ou acabou de passar por uma cirurgia de mudança de gênero. Em uma sociedade ainda pautada por parâmetros conservadores no que diz respeito à sexualidade e formas de experienciá-la, o cenário futurista e a ambiguidade do filme de Luiz Roque instigam os espectadores a refletir sobre a identidade sexual e a liberdade sobre o próprio corpo, assim como as implicações excludentes dos conceitos de “normal” e  “natural”.

 

Nicolás Robbio, Mar del Plata, Argentina, 1975. Artista residente em São Paulo desde 2002 e graduado em artes plásticas, tem no desenho sua principal ferramenta de expressão e elaboração conceitual, presente mesmo em instalações e projeções. Desenhos técnicos e elementos da arquitetura integram corriqueiramente a sua produção, que questiona e readapta uma série de sistemas de representação usuais. Para “Medos Modernos”, Nicolás Robbio parte do padrão de representação gráfica dos fluxogramas de autoatendimento telefônico, sistemas funcionais e lógicos baseados em perguntas que exigem respostas binárias – sim ou não. O artista apresentará uma instalação que materializa um diagrama no espaço expositivo, onde objetos diversos tomariam o lugar das células. A transição entre um e outro elemento não se faz por relações lógicas evidentes, como nesses esquemas operacionais, mas por associações acidentais e enigmáticas. Assim, Nicolás Robbio aponta as lacunas e disfuncionalidades de um sistema de representação que tem como ambição a racionalização e a elucidação de uma situação complexa.

Matheus Rocha Pitta, Tiradentes, MG, 1980. O artista cria suas obras a partir do interesse na relação entre sociedade, mercado e consumo, produzindo intervenções no espaço que trazem à tona temáticas sobre a valorização do capital e a força de trabalho humana. Faz uso de linguagens como instalação, escultura, fotografia e vídeo, em que sempre articula imagens e objetos conhecidos e retirados do cotidiano para discutir questões políticas e mercadológicas e incitar o público a desenvolver um raciocínio pautado em suas referências. Em “Medos Modernos”, Rocha Pitta exibirá uma versão de seu trabalho “Deposição”, de 2013, exposto inicialmente no Kunst Im Tunnel – KIT, em Düsseldorf, Alemanha. Para a sala do Instituto, a instalação será composta por alimentos industrializados, dispostos diretamente sobre o chão, prontos e disponíveis para o consumo. O visitante será convidado a experimentar – sem o auxílio de talheres – esses produtos, que estarão abertos, sugerindo o consumo, mas colocando um desafio para o seu conforto. O artista trata, então, do valor das coisas desprovidas de seu estatuto de mercadoria, em uma condição de oferenda, sujeita ao desperdício.

 

 

Sobre o Núcleo de Pesquisa e a curadoria

 

O Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake, coordenado por Paulo Miyada e integrado por Carolina de Angelis, Julia Lima, Olivia Ardui e Priscyla Gomes, vem pesquisando arte brasileira desde 2011. Com projetos de exposição e pesquisas como a Linha do Tempo da Arte Brasileira, o NPC já colaborou com exposições como Paulo Bruscky, Estranhamente Familiar, Jasper Johns, Louise Bourgeois, Arquitetura Brasileira, Tomie Ohtake, entre outras.

 

Paulo Miyada, São Paulo, 1985. Curador e pesquisador de arte contemporânea. Arquiteto e urbanista pela FAU-USP, onde realizou seu mestrado na área de História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo. Trabalhou como assistente de curadoria da 29a Bienal de São Paulo (2010), compôs a equipe curatorial do programa Rumos do Itaú Cultural 2011-13 e foi curador das exposições coletivas “Em Direto”, novembro de 2011, e “É Preciso Confrontar as Imagens Vagas com os Gestos Claros”, setembro de 2012, ambas na Oficina Cultural Oswald de Andrade, entre outras.

 

 

Até 04 de maio .

Trio na galeria Vermelho

25/mar

Um inédito cartaz triplo é o que oferece a galeria Vermelho, Pacaembu, São Paulo, SP, através das exposições individuais “Neste Lugar” de Daniel Senise (salas 1 e 2), “Repetição da ordem” de Nicolás Robbio (sala 3) e a instalação “Escalpo Islâmico” de Dora Longo Bahia (Terraço). Na abertura aconteceu o lançamento – pelas Edições Tijuana- do livro de artista “La Pintura Española” de Daniel Senise.

 

A arquitetura dos espaços do cotidiano alimenta a concepção e a produção das obras de Daniel Senise, constituindo a poética que permeia sua obra como um todo. O conjunto das obras que integram a individual “Neste Lugar” mantém em sua gênese essa característica e retoma um elemento conceitual importante já utilizado por Senise no início dos anos 2000. Nelas, o artista volta a revelar o interior de grandes espaços expositivos, como nas colagens National Gallery, Gemäldegalerie e Musée D’Orsay.  O resultado do interesse de Senise pela arquitetura, história e dinâmicas empregadas nestes grandes acervos públicos está presente na instalação “Eva”, mostrada no Centro Cultural São Paulo, em 2009. Na obra, composta por blocos similares a tijolos feitos em papier maché, a partir da reciclagem de catálogos, livros de arte e convites de exposições, Senise aponta para o apagamento pelo qual passam vários dos acervos públicos. Em 2009, Senise literalmente escondeu a escultura “Eva”, de Brecheret, atrás de quatro paredes feitas com os restos de papel destas instituições.

 

O mesmo suporte foi utilizado por Senise na instalação apresentada na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010. Nesse caso, os blocos de papel reciclado contendo milhares de informações acerca de pintura foram usados não apenas na construção do espaço expositivo mas se transformaram na obra em si, conduzindo o observador, como menciona Marco Silveira Mello, “para atentar às superfícies e ver, nos pequenos  vestígios das placas,… acontecimentos pictóricos ou evocativos à compleição da pintura”. Na instalação “Parede com 5 buracos”, criada por Daniel Senise para o projeto “Travessias 2 – Arte Contemporânea na Maré”, na favela da Maré, RJ, em 2013, a referência a essas grandes instituições é literal. A obra foi apresentada sobre uma parede localizada na entrada do espaço expositivo, com cinco buracos por onde podia-se ver as maquetes idênticas às salas de museus, como o Musée D’Orsay (Paris), o MoMA (Nova York), o National Gallery (Londres), e o MAM RJ (Rio de Janeiro). No ultimo buraco, o observador podia visualizar o espaço onde ele se encontrava. Segundo o artista, a obra revela algo comum nos dias de hoje que é a substituição da presença real decorrente da democratização da informação. “Neste Lugar” contará com duas maquetes. Uma delas será montada na fachada da Vermelho, e reproduzirá o hall de entrada da galeria, sugerindo um jogo metalinguístico entre experiência física e representação pictórica.

 

Já nas obras “Musée du Louvre”, “Museo del Prado”, “Galleria degli Uffizi” e “National Gallery” da série “Museu”, todas de 2013, Senise fragmenta as reproduções publicadas por esses museus sobre suas coleções e acondiciona todo esse conteúdo em caixas de acrílico transparente, criando uma ideia análoga a de coleção, gênese de todo museu. Comentar a história da arte e, mais especificamente, a história da pintura integra o léxico de Senise. Na exposição “Neste Lugar”, entretanto, essa estratégia aparece ampliada, evidenciando o caráter impalpável e imprevisível que intermedia a relação entre observador e obra de arte. “La Pintura Española”, livro de artista que Senise lançou na data de abertura da individual, materializa por meio de um jogo de luzes e espelhos, esse procedimento.

 

 

“Repetição da ordem”

Nicolás Robbio

 

A individual “Repetição da ordem” de Nicolás Robbio foi construída a partir de três símbolos que representam o Poder: a bandeira, a grade e a moeda. Símbolo de estados soberanos, clãs ou de sociedades de pessoas regidas por lei ou pela tradição, a bandeira aparece na vídeo instalação “Sem Título” (2014), representada apenas pela sombra que reproduz. Sua matriz, nesse caso ausente, nos daria pistas de sua procedência. Porém, o interesse de Nicolás Robbio está na simbologia da “Bandeira”. “Los de arriba, los de abajo. Los buenos, los malos”, vídeo criado por Robbio em 2011, emprega imagens de grades de ferro utilizadas em casas e edifícios, para tecer um comentário sobre a impossibilidade de permanência e de conciliação entre opostos. O acúmulo de poder aquisitivo acontece por meio da moeda. No “Todos os caminhos levam a Roma” [2014], duas moedas de países diferentes, como Inglaterra e Colômbia, se relacionam de forma equilibrada num sistema de engrenagem, como se o valor que representam pudesse ser equivalente. Em “Repetição da ordem” Robbio cria uma representação acerca da sociedade atual, por meio dos símbolos do poder que a fazem funcionar.

 

 

Escalpo Islâmico

Dora Longo Bahia

 

Obra criada e apresentada originariamente no 2º andar do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera, durante a 28ª Bienal de São Paulo, em 2008, “Escalpo Islâmico”, de Dora Longo Bahia, emprega motivos islâmicos sobre um fundo de tinta acrílica vermelha, para tecer um comentário acerca da violência.

 

 

Sobre os artistas

 

Daniel Senise. Naceu no Rio de Janeiro, Brasil, 1955. Exposições Individuais (seleção): Daniel Senise 2892 – Casa França Brasil – Rio de Janeiro – Brasil (2011); Daniel Senise – Estação Pinacoteca – São Paulo – Brasil (2009); Daniel Senise – Trabalhos Recentes – Museu Victor Meirelles – Florianópolis – Brasil (2008); Daniel Senise – Galeria Vermelho – São Paulo – Brasil (2007); Paintings from the North Ramis Barquet Gallery – Nova York – EUA (2001). Exposições Coletivas (seleção):  O Gesto e o Signo – White Cube – São Paulo – Brasil,  2013; Gravura em campo expandido – Pinacoteca do Estado – São Paulo- Brasil,  2012; Jogos de  Guerra – Caixa Cultural Rio de Janeiro- Rio de Janeiro – Brasil, 2011; 29ª Bienal de São Paulo: Há sempre um copo de mar para um homem navegar – Fundação Bienal de São Paulo – São Paulo—Brasil, 2010; After Utopia – Museo Centro Pecci – Prato – Itália, 2009.

 

Nicolás Robbio. Nasceu em Mar del Prata, Argentina, 1975. Exposições Individuais (seleção): Bandeira em branco não é bandeira branca – Galeria Vermelho – São Paulo – Brasil (2011); O Amanhã de Ontem não é Hoje – Programa Emissores Runidos – Episódio 1 – Fundação Serralves – Porto – Portugal (2009); Indirections – Pharos Centre for Contemporary Art – Nicosia – Chipre (2008). Exposições Coletivas (seleção): Sextanisqatsi: desordem  habitável  – Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey (MARCO) – México (2012); 32º Panorama da arte Brasileira – Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) – São Paulo – Brasil (2011); Para ser Construidos – MUSAC – Léon – Espanha (2010); 2° Trienal Poli/Gráfica De San Juan – Porto Rico (2009);  28ª Bienal de São Paulo – Fundação Bienal de São Paulo – Pavilhão Ciccillo Matarazzo – São Paulo – Brasil (2008).

 

Dora Longo Bahia. Nasceu em São Paulo, Brasil, 1961. Exposições Individuais (seleção) Desastres da Guerra, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto, Brasil [2013]; Trash Metal, Galeria Vermelho, São Paulo, Brasil (2010); Escalpo carioca e outras canções, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), Recife e Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Rio de Janeiro, Brasil (2006]; Marcelo do Campo 1969 –1975, Centro Mariantônia, São Paulo, Brasil (2003). Exposições Coletivas (seleção): Imaginarios Contemporâneos, Museo Tecnológico de Monterrey, Monterrey, México (2013]; The Spiral and the Square, SKMU Sorlandets Kunstmuseum, Kristiansand, e Trondheim Art Museum, Trondheim, Noruega (2012); Destricted.br, Galpão Fortes Vilaça, São Paulo, Brasil (2011); IX Bienal Monterrey FEMSA, Centro de las Artes, Monterrey, México (2009); 28ª Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal, São Paulo, Brasil (2008); Farsites: urban crises and domestic symptoms in recent contemporary art, Centro Cultural Tijuana e San Diego Museum of Art, Tijuana – Mexico/San Diego, EUA (2005); Imagem Experimental, Museu De Arte Moderna (MAM SP), São Paulo, Brasil (2000).

 

 

Até 05 de abril.

Gabriela Machado em Ribeirão Preto

A Galeria Marcelo Guarnieri, Ribeirão Preto, São Paulo, SP, apresenta a exposição “Um olhar viajante” da artista Gabriela Machado. Em sua primeira individual na galeria, Gabriela Machado exibe uma seleção recente de desenhos, pinturas e esculturas. Os desenhos e pinturas se apresentam quase sempre em grandes formatos, ocupando o espaço com cores cítricas. A tinta aguada cria uma fluidez aos trabalhos, que tem origem através de uma poética que se cria pelo pensar e fazer concomitantes, fazendo dela não um reflexo da natureza, mas sim uma reflexão do que nela está embutido. Já as esculturas aparecem como um desdobramento deste pensamento poético, elas saem das pinturas e retornam a elas, com o desafio de fazer uma construção através de um material que não é fluido, que necessita de força bruta, que não surge do imediatismo, onde é necessária a percepção da necessidade do tempo, passando pela percepção de como estar no mundo, de como se inserir no espaço.

 

 

 

Sobre a artista

 

Gabriela Machado nasceu em 1960 em Santa Catarina, atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro. Dentre as diversas exposições em que participou, destacam-se as recentes: “Cadência”, Paço Imperial, Rio de Janeiro – Brasil, 2012; “Os jardins de Lisboa em Gabriela Machado”, Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa – Portugal, 2011; “Doida disciplina”, Caixa Cultural Rio de Janeiro e São Paulo – Brasil, 2009.

 

Gabriela Machado – Um “Olhar Viajante”, Criando Sempre

 

 

Texto de Jorge Emanuel Espinho

 

Tantas e tantas vezes verificamos – num qualquer percurso artístico de que somos testemunhas -, a coerência e o recorte formal característicos desse criador funcionarem como pragmáticas e invioláveis prisões, que por fim encerram e limitam a própria liberdade criativa do artista. Sua pretensa liberdade fica assim reduzida e rebaixada apenas a uma teórica possibilidade nunca exercida. Se naturalmente esperamos e aplaudimos uma prática livre e inclusiva como parte fundamental da ação do artista, é com frustração e pesar que vemos se vulgarizar um encerramento da sua criatividade bem dentro da própria obra, assim feita percurso a respeitar e prosseguir, assim feita limitação e fronteira, encerramento e repetição. Muitas e demasiadas vezes, o próprio caminhar do artista se faz numa paisagem imutável e esterilizada, em derrapagem de infinito desdobramento dos seus temas e pressupostos, métodos e meios; sem que assim se veja avanço ou diferença, inovação ou aventura…

 

Questões como as lógicas do mercado ou o reconhecimento são muitas vezes apontadas como responsáveis por essa repetitiva continuidade. Aqui preferimos enaltecer e sublinhar a coragem voluntariosa face ao risco da mudança – que presenciamos fortemente nesta exposição -, e a lúcida autocrítica, como alvos a perseguir e alcançar. Uma positiva ambição criativa da artista promove, nesta mostra, novos experimentos, fazeres e avanços.  Será essa, julgamos, a mais elevada razão e motivação do ser criativo.

 

O trabalho de Gabriela Machado vem do desenho e da pintura – e de uma pintura em que o traço é desenhado, livre, expressivo e grosso, tantas vezes fluido e aquoso -, na manifestação solta de uma energia vital que parece querer ser, desde sempre, o grande sujeito escondido, o grande alvo principal, do trabalho da artista. Reconhecida pelas suas grandes pinturas de flores que sempre recusaram ser apenas isso – e que antes se reconfiguram num aquático escorrimento sensual de côr e de encontro, como exemplos momentâneos e poéticos da força delicada e firme que as habita, suspensas em branco vazio -, a artista apresenta nesta mostra individual o lugar múltiplo em que agora se encontra. Ou melhor, que para si criou e permitiu, generosa e disponível, experimentando e abrindo para si própria – e para nós com ela -, o seu mais novo, desse seu agora.

 

Poderíamos, na nossa imparável ânsia de nomear, chamar a esse lugar de Cruzamento, pois nele muito se encontra e cruza, e dele muito em futuro já se descobre. Ou Farol, suspeitando e vislumbrando também já outras paisagens, ainda mais longe, a iluminar criando. Ou talvez Sentido, já que o suave tacto da mão que mexe o barro, traz outro sentir/saber nesse fazer, que é um olhar novo a experimentar: avançando, tacteando, sempre em improviso. Sublinhe-se desde já, que quer seja nas pequenas esculturas ou nas maiores – mais recentes, das quais encontramos um exemplar produzido na própria galeria para esta mostra -, a artista manipula diretamente agora, sem tela mediando, a tal força vital que bailava ébria em suas pinturas. Com simultânea intimidade curiosa e descoberta, familiaridade e novo encontro, aprofundamento e maior leveza.

 

Parece acontecer aqui, e no percurso já longo da artista, uma gradual aproximação ao âmago do acontecimento, seu centro físico, sua origem. Pois se o seu trabalho revelava o resultado pictórico de eventos e manifestações registrados no seu olhar o mundo; agora surge um fazer mais delicado e artesanal, noutro sensível; resultado do encontro com esse mesmo centro. Este centro é, ou torna-se aqui, e claramente reunidos: dispersão e fonte, intenção e forma, corpo e função, lazer e essência. Apetece dizer que, ao contrário de se deixar levar por percursos e passeios lógicos e inócuos pela própria obra, a artista recua em profundidade, avançando: aproximando-se e dando o íntimo corpo que é seu, a esse manancial etéreo de cuja natureza nos foi, ao longo dos anos, sussurrando e discorrendo.

 

Podemos afirmar que se aqui arriscamos essa difusa fonte enquanto origem de sua obra, com maior firmeza dizemos que para onde esta vai e seguirá será mistério a ser desvendado com incerteza e parcimonia. E talvez seja esta a grande qualidade processual a que assistimos nesta mostra: o raro momento de intersecção e cruzamento entre um passado de leitura do real, e o futuro da sua nova escrita que aqui a artista esboça.

 

Onde antes se descrevia inventando, agora se cria a construir; onde se cantavam qualidades agora se afirma a realidade, sempre em seu forte potencial infinito. Por fim, o eterno bailado hipnótico da cor e forma, deu lugar ao sumário espesso do que tudo cria: barro, mão, órgão.

 

Para nós que agora olhamos, mais de longe a querer ver, esta é a fundamental lição de (des)educar o olhar. Talvez para um dia, depois, melhor o (re)criar. Nas palavras de Gabriela Machado, é esse “Olhar Viajante” que aqui se nos apresenta. Orgânico, mais solto, mais fundo e transformado, agora talvez, em Criando Sempre.

 

 

Até 18 de abril.

Ivan Cardoso, Cocchiarale e Agra na Paralelo

A Galeria Paralelo, Pinheiros, São Paulo, SP, promove no dia 1º de abril de 2014, terça-feira, às 18h a conversa aberta “Monstrutivismo: O Vampiro é Nosso”, com o curador Fernando Cocchiarale e o pesquisador Lúcio Agra, sobre a obra do artista Ivan Cardoso, que também estará presente no bate-papo.

 

O encontro versa sobre o trabalho de Ivan, o qual foi tema de exposição individual em 2013, na própria Galeria Paralelo, uma mostra produzida não só pela invenção poética e por novas imagens, pinturas e objetos do artista, como também pelo registro icônico de personalidades do universo cultural brasileiro, capturados por sua câmera. Nas palavras de Fernando Cocchiarale: “(…) tanto o cinema de Ivan Cardoso quanto suas outras obras têm por referências ícones da brasilidade. Mas, diferentemente do foco agro-rural que havia marcado essa questão até o pós-guerra, as referências apropriadas pelo artista são inversamente urbanas. Na verdade ele sequer trata de temas estritamente brasileiros já que múmias, vampiras, etc. são parte de um imaginário local que filtrou Hollywood e chegou às chanchadas da Atlântida.”

 

Em meio à intensa repressão instaurada pela Ditadura Militar, Cardoso inventou um cinema que, ao conceber a máscara do chamado terrir e a estética udigrudi, confrontava diretamente tal repressão e seus desdobramentos. Coordenação: Andrea Rehder e Flávia Marujo.

Mais pinturas: Fernando Burjato

A Galeria Virgílio, Pinheiros, São Paulo, SP, apresenta a exposição “Mais pinturas”,individual de Fernando Burjato. O artista paranaense de quarenta e um anos, em sua terceira individual na Galeria Virgílio, apresenta catorze obras recentes, onde são radicalizadas algumas características que já eram visíveis em sua produção anterior: áreas de cores intensas, dégradés, camadas de tinta a óleo que se acumulam em volumes. E a um tempo a afirmação da pintura e um olhar irônico sobre sua tradição e suas convenções.

 

A cor, sempre um elemento fundamental, se faz visível através de camadas espessas de tinta, que literalmente se estendem para além do espaço dos quadros, ou que se dobram sobre eles, como franjas. Segundo Bruno Oliveira, que assina o texto de apresentação, nessas pinturas “não há qualquer ímpeto de escapar da materialidade, nem do objeto (…) a tinta é um pedaço de pele disposta sobre um corpo. Esse corpo é o quadro, coberto por um manto de tinta e cor. Essa derme-pintura não é pele lisa, perfeita, jovem. Ela é casca grossa, uma pele velha, cheia de imperfeições e cicatrizes, maquiada exageradamente, como se o desejo fosse esconder as marcas do tempo, os defeitos da história.”

 

Em muitas obras recentes, em pequenas dimensões, as telas têm espessuras variáveis, não raramente muito maiores que o habitual, na forma de paralelepípedos. O que se pode chamar de pintura não se atém à superfície frontal, mas se estende às laterais. A pintura é uma superfície, e ao mesmo tempo um objeto. Uma janela (para a cor) e um bloco.

 

 

Sobre o artista

 

Fernando Burjato é formado pela escola de Música e Belas Artes do Paraná desde 1994 e mestre em artes pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNES), desde 2011. Realizou exposições individuais, entre outros lugares, na Galeria Virgílio, na Galeria Casa da Imagem, Curitiba, Centro Cultural São Paulo, Centro Universitário Maria Antonia e participou da 6º Bienal de Curitiba. Possui obras nos acervos do Museu de Arte Contemporânea do Paraná, MAC/PR e do Museu Municipal de Arte de Curitiba, MuMA. É autor do livro de contos “Cabeça, corpo caveira e alma”, Bom Texto, 2000, e em parceria com Daniela Vicentini, publicou “Arte Brasileira nos Acervos de Curitiba”, Segesta, 2010. Vive e trabalha em São Paulo.

 

 

De 16 de março a 19 de abril.

Personagem de Pierre Lapalu

A Galeria Paralelo, Pinheiros, São Paulo, SP,  exibe “Joaquim Nunes de Souza – O Etnógrafo Naïf”, exposição do artista plástico curitibano Pierre Lapalu, que também assina a curadoria da mostra. Trata-se de uma instalação narrativa, com 36 desenhos, sobre a vida e obra de um artista fictício criado por Pierre, chamado Joaquim Nunes de Souza, o qual teria produzido uma série de desenhos retratando pessoas no espaço urbano.

 

De natureza introvertida e origem humilde, Joaquim não tem formação acadêmica e nem aplica rigor científico em seus desenhos de observação, seu único meio de interação com a sociedade. Seu trabalho apresenta recortes de cenas do dia a dia – relances do cotidiano que permanecem em nosso imaginário -, revela protagonistas de pequenos detalhes da vida. Joaquim age como um “etnógrafo naïf”, fazendo um levantamento do tipo físico e do comportamento desses habitantes da cidade de Curitiba, em uma tentativa intensa de perceber a realidade social e entender a configuração local, da qual se sente excluído.

 

Apesar da linearidade em relação à cronologia da história de Joaquim, mostrada na exposição com disposição clara de início e fim, os desenhos foram feitos aleatoriamente, sendo que todas as pessoas retratadas, os locais dos textos e dos retratos, de fato existem (ou existiram). Sobre seu processo criativo, Pierre comenta: “A escolha do desenho, basicamente nanquim sobre papel, dá-se pela facilidade que um artista teria de desenhar na rua, já que todos os desenhos seriam supostamente produzidos durante observações de populares em praças, terminais de ônibus e demais locais de convivência comum, mas que passam despercebidos pelos que ali transitam”.

 

Tomando a urbanidade como tema e o uso da ficção como mediação com o público, Pierre Lapalu nega a premissa do artista como um executor do próprio estilo, emprestando seus traços e jeito de desenhar a Joaquim. “(…) entendi que deveria procurar desenvolver a metamorfose que o traço e o estilo de um artista teria durante toda sua vida, pois o estilo muda conforme sua percepção vai se descolando da realidade, o que é observável pelo traço”. Coordenação: Andrea Rehder e Flávia Marujo.

 

 

De 29 de março a 03 de maio.

Marine Hugonnier na Fortes Vilaça

19/mar

Com a exposição “A Abelha, o Papagaio e a Onça”, a artista francesa Marine Hugonnier,  realiza sua segunda individual na Galeria Fortes Vilaça, Vila Madalena, São Paulo, SP. A mostra apresenta um filme, fotografias e esculturas que partem de pesquisa da artista sobre maneiras de abordar, compreender, e conviver com a natureza e os sistemas de representação que nossa sociedade criou. No filme “Apicula Enigma”, Marine Hugonnier desconstrói a linguagem corrente do “documentário de vida selvagem” ao usar recursos técnicos do cinema para se aproximar da verdade fatual de uma colmeia. Partindo de pesquisa sobre mitologias ocidentais associadas às abelhas, incluindo os livros “A Vida das Abelhas”, de 1910, de autoria de Maurice Maeterlink, “Dos Animais e dos Homens” de J.V Uexkull e também de filmes que vão de Eadweard Muybridge e Etienne-Jules Marey às histórias infantis de Walt Disney, a artista procurou filmar o espaço entre as abelhas e a equipe de filmagem, o estar na presença das abelhas, ao invés de humanizar a sociedade apícula usando-a como uma parábola para nossa sociedade. O filme é uma maneira de procurar a exata distância em que o mundo animal ainda mantém o seu mistério.

 

Nesta mostra, Marine Hugonnier considera a figura do papagaio como a de um animal aculturado, já que tem a habilidade de falar. A ideia de poder incluir um animal no contexto público por sua capacidade de comunicação foi a base para a performance que aconteceu na abertura da exposição, onde um papagaio interagiu com os visitantes. É também base para seu próximo filme, “The Parrot Case”, – O caso do Papagaio-, adaptação da história real sobre um papagaio que presenciou um assassinato e depois foi usado como testemunha chave no julgamento. Três objetos são ressignificados por um carimbo com as palavras “Union Pour La Cinegenie” – União pela Cinegenia. Esta união é um grupo informal criado por Marine Hugonnier e Manon De Boer, com o propósito de definir a palavra inventada “cinegenia”.  As obras que levam o carimbo são uma gravura do século XVIII, “An Assembly of Animals’ -Uma Assembleia de Animais -, um livro-colagem e um anúncio antigo do carro Jaguar que assim formam um tipo de coleção de exemplos que podem definir esta qualidade especial ou que simplesmente devem ser consideradas por suas qualidades cinemáticas.

 

A terceira parte da exposição está baseada na pesquisa e conceitos delineados por Eduardo Viveiros de Castro: a perspectiva ameríndia em que existe somente uma humanidade da qual os animais também fazem parte.  A noção ameríndia expande assim a ideia de subjetividade para uma não diferenciação entre humanos e animais. Dentro desta diferente concepção ontológica, a realidade e o ponto de vista de um animal, como a onça, pode ser apreendida e compartilhada. Ter uma outra perspectiva da mesma realidade é um dos intuitos dos rituais xamânicos praticados pelos povos habitantes da região amazônica. Neste contexto, a artista apresenta a série de esculturas abstratas “Anima”, que são objetos móveis. O título faz referência as palavras alma ou espírito ou psyche. Estas obras estão posicionadas em bases espelhadas nas quais o reflexo agrupa o espectador, seu entorno e a escultura em si, criando um único corpo.  Em “Anima(L)”, a escultura abstrata é acompanhada pela a fotografia de um animal criando assim uma nova relação. Ao lado desta,  a artista intervêm com folhas de ouro em uma escultura “ready made” que representa um xamã virando uma onça. Dois grandes luminogramas compõem a exposição, os trabalhos que são feito de papel fotossensível exposto à um lugar e período determinado, resultando em imagens quase monocromáticas, sendo a simples emanação do calor e elementos presentes no ambiente. Esta exposição considera diferentes tipos de concepções ontológicas sobre humanos e animais e assim questiona dicotomias tradicionais modernas; a divisão entre Natureza e Cultura, Sujeito e Objeto e os modos de produção e troca que estes sistemas de pensamento implicam.

 

 

Sobre a artista

 

Marine Hugonnier nasceu em Paris, França, em 1969 e vive e trabalha em Londres. Entre suas recentes exposições individuais podemos destacar: Chateau D’Angers, França (2014); Sainsbury Centre for Visual Arts, Norwich, UK (2013); FRAC Champagne-Ardenne, Reims, França (2009); Malmö Konsthall, Suécia (2009); Kunstverein Braunschweig, Alemanha (2009); Musée D’Art Moderne et Contemporain MAMCO, Geneva, Suiça (2008); S.M.A.K. Stedelijk Museum voor Actuele Kunst, Gent, Bélgica (2007); Philadelphia Museum of Art, Philadelphia, EUA (2007). Sua obra está presente em importantes coleções como: Thyssen-Bornemisza Contemporary Art Foundation, Viena; National Gallery of Art, Washington DC; Musée d’art Moderne de la Ville de Paris; MOMA, New York;  MACBA, Barcelona; Jumex Collection, Cidade do México; Reina Sofia, Madrid; Centro de Arte Contemporânea Inhotim, Brumadinho, MG; entre outros.

 

 

De 22 de março a 03 de maio.

Flávio de Carvalho na OCA

18/mar

O lado polêmico de Flávio de Carvalho (1899-1973) é bem conhecido – ficou famosa a fotografia do artista andando pelo centro de saia e blusa bufante, com expressões de espanto à sua volta. Mas a exposição em cartaz na Oca, Parque do Ibirapuera / portão 3, Parque Ibirapuera, São Paulo, SP, a nova sede do Museu da Cidade, quer ampliar o olhar do visitante. Organizada a partir de buscas em acervos paulistanos, a montagem exige um pouco de paciência para ler os textos exibidos. Ainda assim, vale a pena. Em um dos artigos escritos para a revista Vanitas, na década de 30, Carvalho ironizava os atores de Hollywood e afirmava que um dia eles seriam mais idolatrados que figuras religiosas – nada mais atual. Dos camarins do Teatro Municipal vieram figurinos criados pelo artista para o balé “A Cangaceira”, encenado em 1954, no qual os bailarinos ficavam rodopiando o tempo todo. No centro da mostra está a reprodução sonora da Experiência nº 2, episódio em que Carvalho, de chapéu, caminhou na direção oposta a uma procissão. Ele causou tanta ira que foi obrigado a se refugiar em uma delegacia para não ser linchado. Há ainda projetos arquitetônicos – nunca executados – e ilustrações.

 

Fonte: Resenha Laura Ming – Veja SP.

 

Até 27 de julho.

Livro artístico

14/mar

Ricardo Sardenberg responde pela curadoria da mostra “A tara por livros ou A tara de papel”. Essa mostra temática é o próximo cartaz da Galeria Bergamin, Jardins, São Paulo, SP, reunindo seleto grupo de nomes e livros de Nuno Ramos, com “Caldas Aulete (Para Nelson 3)”; Beatriz Milhazes, com “Meu Bem”; Artur Barrio, com “Cadernolivro”; Mira Schendel, com “Sem título”; José Bento, com “Baquelite”; Ed Ruscha, com “Me and The”; Rivane Neuenscwander, com “Paisagens Dobradas”; Marcius Gallan, “Livro/objeto Presente”; Leonilson, com “Certas Sutilezas Humanas” e Julio Plaza, com “Objetos Poema”.

 

 

A palavra do curador

 

A exposição A tara por livros ou a tara de papel não toma como ponto de partida a investigação do livro-objeto, algo que já pôde ser visto em tantas exposições recentes. Mas, espero, ela se apropria da ideia do livro-corpo. Embora não seja uma investigação puramente plástica ou estética, ainda assim, espero que a exposição cobre do visitante a experiência sensual e estética, um pouco hedonista com os objetos de desejo.  O livro aqui se confunde com a possessão, o erotismo, a compulsão pelo belo e também como nota de carinho, pois o livro se dá pra quem se quer bem. Nesse sentido, o livro artístico aqui é visto como um fetiche. A exposição celebra o objeto livro pela sua força de sedução.

 

O livro não é apenas objeto ou caixa, invólucro de histórias e sonhos. O livro é uma ideia que se apodera da nossa mente e que, por diversas vezes, a sua perda – um livro que foi emprestado e nunca mais voltou – pode ser tão dolorosa quanto a perda da pessoa amada. Como escreveu Flaubert em defesa do seu livro Madame Bovary: no nosso livro, a palavra perfeita é somente nossa e só existe no nosso léxico.

 

Pouco é mais perturbador que a vista de uma fogueira de livros.”  – Ricardo Sardenberg.

 

 

De 18 de março a 17 de abril.