Novo artista representado pela Gomide&Co.

04/mar

Marcel Broodthaers nasceu em Bruxelas em 1924 e morreu em 1976, em Colônia. Atuou principalmente como poeta até 1963, quando, nos últimos doze anos de sua vida, desenvolveu um corpo de trabalho amplo e multifacetado. Reconhecido por explorar as relações entre linguagem, objeto, retórica e imagem, sua produção inclui poesia, filme, fotografia, desenho, pintura, escultura e instalações.

Entre 1968 e 1972, fundou o Musée d’Art Moderne, Département des Aigles, concebido como um museu ficcional e itinerante, inicialmente instalado em sua residência em Bruxelas e posteriormente apresentado em diversos contextos. Nesse âmbito, produziu os Poèmes industriels, placas de plástico termoformadas a vácuo que combinam texto e imagem por meio de uma linguagem visual informada pela sinalização urbana e pela comunicação de massa. Nos últimos anos de sua vida, Broodthaers desenvolveu os Décors – ambientes expositivos imersivos e de grande escala que, em determinados momentos, incorporavam e rearticulavam elementos de trabalhos anteriores.

A obra de Broodthaers foi apresentada em importantes exposições internacionais, incluindo a Documenta (1972, 1982 e 1997), em Kassel, bem como a Venice Biennale (1976, 1978, 1986 e 2015) e a Bienal de São Paulo (1994 e 2006). Em 2016, uma grande retrospectiva foi organizada pelo Museum of Modern Art (MoMA), Nova York, que itinerou para o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri, e foi concluída na KunstsammlungNordrhein-Westfalen (K21), Düsseldorf, em 2017. Exposições individuais também foram realizadas na Tate Gallery, Londres (1980); no Palais des Beaux-Arts, Bruxelas (2000); no Kunstmuseum Basel (2014); no Fridericianum, Kassel (2015); no M HKA – Museum of Contemporary Art Antwerp (2019); na WIELS, Bruxelas (2021); na Kunsthaus Zürich (2023); e, em 2022, Marcel Broodthaers: Décor, apresentada na Gomide&Co, sua primeira exposição individual na América do Sul.

Sua obra integra importantes coleções públicas, incluindo o MoMA – The Museum of Modern Art, Nova York; a Tate Modern, Londres; o Musée National d’Art Moderne – Centre Georges Pompidou, Paris; a Bourse de Commerce – Pinault Collection, Paris; o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri; o Glenstone Museum, Potomac, EUA; o Hamburger Bahnhof – Nationalgalerie der Gegenwart, Berlim; a Staatsgalerie Stuttgart, Stuttgart; a K21, Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf; o Van Abbemuseum, Eindhoven; o S.M.A.K. – Stedelijk Museum voor Actuele Kunst e a Foundation Anton & Annik Herbert, Ghent, Bélgica; os Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique, Bruxelas; a Scottish National Gallery of Modern Art, Edimburgo; o Philadelphia Museum of Art, Filadélfia; a Samsung Collection, Seul; o Museum Voorlinden, Wassenaar, Países Baixos; o GES-2 (VAC Foundation), Moscou; entre muitas outras.

Em torno da obra de José Antônio da Silva.

03/mar

A Fundação Iberê Camargo e o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo promovem rodada de conversa sobre a obra do artista naïf José Antônio da Silva.

Exposição “José Antônio da Silva: Pintar o Brasil”, em cartaz até 15 de março, já recebeu mais de 60 mil visitantes somente no MAC – USP. Encontros, sobre sua obra, coleção e circulação ocorrem dias 07 e 14 de março, às 11h, Auditório Walter Zanini do MAC – USP. 

Neste sábado 07, a Fundação Iberê Camargo e o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo promovem uma conversa sobre a obra de José Antônio da Silva com a galerista Vilma Eid, o colecionador Orandi Momesso e o diretor do Muse de Grenoble (FR), Sébastien Gokalp sobre o colecionismo, a circulação e a recepção crítica da obra do artista. O encontro será mediado por Emilio Kalil, diretor superintendente da Fundação Iberê Camargo.

No dia 14 (sábado), também às 11h, será exibido o filme “Quem não conhece o Silva?” (1979), seguido de conversa com Carlos Augusto Calil, diretor do curta. O encontro será mediado por Fernanda Pitta, curadora do museu e especialista no trabalho do artista.

José Antônio da Silva: Pintar o Brasil, em cartaz até o dia 15 de março, já passou pelo Museu de Grenoble, na França, como parte da Temporada Brasil-França 2025, e pela Fundação Iberê, em Porto Alegre. A exposição apresenta 142 obras, sendo 119 do acervo do MAC-USP, que reúne trabalhos do artista desde sua fundação e abriga o maior acervo do país de sua obra. A doação inaugural do acervo já incluía pinturas de 1942 a 1950, período em que Silva começava a despertar o interesse da crítica, antes mesmo de seu reconhecimento nas primeiras Bienais de São Paulo. Esse momento revela uma inflexão no Modernismo Brasileiro, que então passava a valorizar produções não-acadêmicas, associadas a uma ideia – ainda que controversa – de arte “ingênua” ou “primitiva”, em diálogo com novas compreensões do popular.

Nuno Ramos representado por duas galerias.

02/mar

Almeida & Dale e a Cerrado Galeria anunciam a co-representação do escritor e artista Nuno Ramos. Sua prolífica obra assume a permeabilidade entre pintura, instalação, escultura, texto, peças teatrais e sambas. Seu corpo de trabalho pode ser entendido como um conjunto de tentativas, isoladas ou combinadas, de entranhar o fazer artístico na matéria, de criar arranjos provisórios entre opostos, de concatenar movimentos e de armar cenas conduzidas por atores humanos e não humanos. 

A palavra, o tempo presente e a realidade político-histórica e cultural do Brasil são tópicos recorrentes em sua prática, em diálogo com figuras fundamentais de diferentes áreas da cultura. Suas obras se dirigem aos limites da matéria, da linguagem e do objeto de arte, ora com aspecto vivaz, ora melancólico, colocando em fragilidade a atuação e o controle da própria ação criativa. 

Nuno Ramos iniciou sua trajetória nos anos 1980 e é um dos nomes determinantes da arte contemporânea brasileira. Ele acumula passagens por quatro edições da Bienal de São Paulo, além de participações nas Bienais de Veneza, do Mercosul e de Havana. Foi premiado pelo conjunto de sua obra com o Grant-Award da Barnett and Annalee Newman Foundation e, como autor, recebeu duas vezes o Prêmio Portugal Telecom. Sua obra integra acervos institucionais como os do Instituto Inhotim, Jewish Museum, MAM São Paulo, Pinacoteca de São Paulo, Städtische Galerie Villa Zanders, Tate Modern, Thyssen-Bornemisza e Walker Art Center, entre outros. 

Em 2026, Nuno Ramos estreia no Theatro Municipal de São Paulo como diretor, ao lado de Eduardo Climachauska, na ópera Intolleranza 1960, de Luigi Nono. O artista lança ainda neste ano livro em prosa inédito e um novo título dedicado à sua obra, organizado pela curadora Pollyana Quintella e pelo professor e pesquisador Victor da Rosa.

A pintura em estado de emergência contínua.

27/fev

A Fortes D’Aloia & Gabriel, Jardins, São Paulo, SP, apresenta até 18 de abril, “Maçã Roxa”, a primeira exposição individual de Willa Wasserman no Brasil. A mostra reúne pinturas intimistas de pequena escala sobre linho e latão, além de obras expansivas sobre tecido, produzidas entre Nova York, onde reside, e São Paulo, onde a artista realiza residência na Casa Onze.

Willa Wasserman aborda questões de intimidade, gênero e metamorfose, entrelaçando referências à pintura clássica e à cultura material com expressões contemporâneas da experiência queer. Trabalhando com tecido e metal, a artista trata o suporte como um participante ativo em cada composição. Óleo, ponta de prata – traços desenhados através da fricção da prata sobre uma superfície preparada – e processos químicos são aplicados de maneiras que permitem que oxidações, manchas e alterações tonais aflorem e permaneçam legíveis. Ela aborda a figuração sem enfatizar a clareza corporal ou contornos nitidamente definidos, privilegiando, em vez disso, espaços amorfos nos quais as formas flutuam e se dissolvem. Técnicas históricas são reinventadas para dar origem a corpos e atmosferas mutáveis, simultaneamente luminosos e sombrios, suspensos em um estado de emergência contínua.

Há vários anos, Wasserman trabalha com a natureza-morta como uma forma de pensar visualmente, tratando os objetos como uma forma de composição silenciosa em vez de exibição simbólica. Ela pinta arranjos de flores e cenas de jardim, como em “Do jardim no novo squat” (2026), onde o pigmento parece se fundir com a superfície metálica, conferindo às imagens uma profundidade tranquila e ambiente. Em “Natureza-morta com maçã roxa, tigela vazia, ancinho de fechadura” (2026), o ancinho de fechadura introduz uma nota de acesso transgressor, fazendo referência a experiências vividas de identidade trans e maneiras de navegar por espaços além das estruturas normativas.

Um artista iraquiano-norteamericano.

26/fev

A Almeida & Dale anuncia a representação de Michael Rakowitz. Com uma prática multidisciplinar, o artista iraquiano-norte americano aborda a História, os dispositivos oficiais de construção de memória, bem como os conflitos sociais e geopolíticos permeados em espaços urbanos e em objetos cotidianos. Tópicos como colonialismo, o imperialismo, a repatriação de artefatos e outros modos de responsabilização e compensação são atravessados em suas obras, a partir da revelação de eventos históricos e biográficos, no que nomeia de “etimologia material”. 

Pautado no engajamento com comunidades e no convite à participação, seu trabalho dissolve frequentemente a fronteira entre arte e vida. Embalagens de alimentos e os processos da alimentação, do preparo ao ato de comer, são recorrentes em suas obras mais célebres e servem tanto como veículo para abordar fluxos migratórios, diásporas e despossessão, quanto como testemunhos da preservação de tradições e como resistência cultural. 

Michael Rakowitz soma participações em mostras coletivas como Trienal de Aichi; dOCUMENTA 13; 16ª Bienal de Sidney; 10ª Bienal Internacional de Istanbul; 15ª, 14ª e 8ª edições da Bienal Sharjah; e 3ª Bienal de Tirana. Sua obra é parte de importantes acervos internacionais, entre eles: MoMA, Tate Modern, Castello di Rivoli Museo d’Arte Contemporanea, MCA Chicago, Van Abbemuseum, The British Museum, The Metropolitan Museum of Art, Museu Nacional de Cabul e UNESCO. A partir de 14 de março, o artista integra a 25ª Bienal de Sidney – Rememory.

Em seu trabalho, Michael Rakowitz aborda a História, os dispositivos oficiais de construção de memória, bem como os conflitos sociais e geopolíticos imbuídos em espaços urbanos e em objetos cotidianos. O artista constitui uma certa “etimologia material” ao manter uma metodologia investigativa sobre as contingências específicas de seus projetos, revelando eventos históricos, biográficos e culturais que resultam em imbricamentos complexos de imagens, linguagens e tempos. Mobilizado por sua ascendência iraquiana-judia, sua obra propõe reaparecimentos que aguçam as contradições entre a suposta racionalidade e a violência dos modelos civilizacionais do Ocidente. 

“Na noite de 17 de janeiro de 1991, lembro-me de estar sentado diante da televisão enquanto jantava, assistindo pela primeira vez em nossas vidas a imagens em tempo real do Iraque – de edifícios que meus irmãos e eu jamais chegaríamos a visitar. E então, de repente, percebi que o lugar para onde meus avós haviam fugido estava destruindo o lugar de onde eles fugiram. Foi quando realmente comecei a reconhecer sobre o que seria o trabalho da minha vida.”

Michael Rakowitz, em vídeo para o Nasher Prize Dialogues, 2022.

A imagem em metáfora do ato fotográfico.

Julia Kater exibe “Duplo/Dual” até 14 de março na Galeria Simões de Assis, Jardins, São Paulo, SP. 

Uma pequena fotografia nos guia: na superfície do tecido, duas mãos se aproximam sem se tocar, erguidas em espelho. O sol escorre entre os dedos, desliza pelos pulsos, se deposita sobre a mesa e retorna em sombra, criando uma espessura comum. O que conecta os corpos é essa película dourada, responsável por estabelecer um pacto silencioso, um tipo de encontro que acontece por incidência luminosa, e que transforma a própria imagem em metáfora do ato fotográfico. 

Novos desdobramentos na produção de Julia Kater, especialmente fruto da residência realizada em 2025, na Cité Internationale des Arts, em Paris. Se antes a artista operava sobretudo por adição e sobreposição, através de recortes e colagens de dicção abstrata, dedicados a embaralhar as coordenadas do céu e da paisagem, as novas impressões sobre seda tingida tratam de uma imagem que retorna ao centro da produção, e que parece emergir da trama do tecido. Enquanto o papel fotográfico tende a funcionar como suporte neutro, cuja função histórica é estabilizar a imagem, o tecido vem introduzir porosidade, uma vez que não apenas recebe a imagem, mas a absorve. Sobre essa primeira pele cromática, carregada de tempo e matéria orgânica, a impressão fotográfica vem pousar como aparição.

Na exposição, esses novos trabalhos podem ser vistos em diálogo com uma produção já conhecida do público, marcada pelo uso de recortes fotográficos, sobreposições e montagens que operavam por descontinuidade.

Caminhos e descaminhos da Arte brasileira.

A Galatea anuncia o primeiro curso de Formação e Repertório em Arte: Passagens e histórias, tempos e aproximações na arte do Brasil. Coordenado pelo curador e pesquisador Diego Matos, o curso apresenta um programa de natureza diversa e panorâmica, apontando para os mais variados caminhos e descaminhos da arte brasileira produzida ao longo do século XX e neste novo quarto de século.

O curso acontecerá ao longo de dezesseis aulas semanais com encontros online e presenciais, às quartas-feiras, das 19h30 às 21h30, com início em 18 de março e término em 1º de julho. A ideia central é fomentar um amplo repertório: para um público geral curioso em arte, para profissionais que integram o circuito artístico e, em especial, para uma plateia próxima à programação da Galatea.

Para isso, propõe-se um plano de aulas que dialogue e tangencie as intenções da direção artística da galeria, colocando em debate suas mais variadas exposições e artistas, sendo também uma plataforma de difusão.

Todas as inscrições devem ser feitas através do e-mail cursos@galatea.art

Um olhar particular na Bienal de Veneza.

25/fev

Ayrson Heráclito foi convidado para a 61ª International Art Exhibition of La Biennale di Venezia, Itália, por Koyo Kouoh.

Nascido em Macaúbas, Bahia, Brasil, em 1968, é artista, professor e curador, com um olhar particular. Sua obra evidencia as raízes afro-brasileiras e seus elementos sagrados, projetando ações e práticas que compõem a história e a cultura da população negra. Seus trabalhos transitam entre instalações, performances, fotografias e produções audiovisuais que lidam com as conexões entre o continente africano e as diásporas negras nas Américas.

O artista possui obras em importantes acervos como o Museu Solomon R. Guggenheim, Nova York;  Museum der Weltkulturen, Frankfurt; Pinacoteca de São Paulo; Coleção Itaú, São Paulo; MAR – Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro; Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador; e Museu Oscar Niemeyer, Curitiba.

A Bienal de Arte 2026, intitulada In Minor Keys, será aberta ao público em maio de 2026, em Veneza.

observador e o objeto.

24/fev

A Galeria Marcelo Guarnieri, Jardins, São Paulo, SP,  apresenta, entre 07 de março e 11 de abril, “Vazio Entre”, terceira exposição individual do artista Carlos Fajardo na sede da galeria. A mostra reúne um conjunto de vinte e quatro desenhos recentes e inéditos e cinco esculturas trabalhadas em vidro, aço corten, aço polido e tecido que exploram a relação entre ausência e presença através das transparências dos materiais, dos intervalos entre superfícies e da brancura do papel. Carlos Fajardo dá continuidade à investigação que desenvolve há seis décadas sobre as relações espaciais entre o corpo, o objeto e a Arquitetura, realizada nesta ocasião através de um diálogo entre a arte e o pensamento quântico.

Em 1966, Carlos Fajardo produziu “Neutral”, obra que se tornaria fundamental para o desenvolvimento do seu pensamento artístico e filosófico. Composta por dois cubos transparentes, sendo um deles de acrílico e o outro formado apenas por um traço que atravessa cada uma das seis superfícies do primeiro, a peça foi entregue ao comprador como um guia de instruções para montagem. Em “Neutral” é possível observar a gênese de alguns interesses que se tornaram complexos ao longo de mais de cinquenta anos de atividades do artista: a elaboração da obra estabelecida pela relação entre o observador e o objeto, o desenho como um modo de pensamento e trabalhos como portadores de ideias que ultrapassam o fazer manual.

Sessenta anos depois, Carlos Fajardo mantém-se fiel às discussões suscitadas pela fenomenologia, mas assim como o tempo, que avançou, o repertório filosófico do artista se expandiu, aproximando-se das reflexões sobre a composição e o comportamento da matéria através dos fundamentos da física quântica. Ao recusar a concepção de uma matéria fixa e plenamente determinada, essa perspectiva evoca um nível microscópico no qual os fenômenos são descritos em termos de probabilidades, interações e correlações, e no qual a observação integra as condições de manifestação do que é observado. A partir da compreensão de que a realidade física é entendida como relacional e dependente das interações que a atualizam, a palavra “vazio” deixa de ser sinônimo de ausência e a palavra “entre” adquire nova densidade, ativando um modo de percepção menos centrado no intervalo entre objetos fixos e mais atento às relações que o constituem.

O que Carlos Fajardo propõe nesta exposição é uma experiência viva e relacional. Nas paredes laterais, dispõem-se trabalhos que exploram, por meio da variação cromática, a transição entre a segunda e a terceira dimensão. À esquerda, um quadrado em azul cerúleo preenche o campo da visão periférica de quem entra, evocando a ideia de transcendência em sua relação com a história da arte moderna e seu uso na representação de atmosferas, composições celestes e aquáticas. Depois, uma série de vinte e quatro desenhos em carvão e pastel seco oscila entre o vermelho, o amarelo, o azul e o preto, revelando, pela fricção do pigmento sobre a superfície do papel, a estrutura reticular da fibra. Os traços, articulados às bordas do A4 e marcados por gestos curtos e precisos, formam, coletivamente, uma sequência que se anima através do movimento do visitante ao percorrer o espaço.

As pinturas de Heitor dos Prazeres.

23/fev

A Almeida & Dale, São Paulo, SP, apresenta uma seleção, inspirada pelo Carnaval, de pinturas realizadas pelo artista durante a década de 1960 que têm o samba como tema central. As telas captam cenas da dança à boemia, incluindo obras expostas na 36ª Bienal de São Paulo – ocasião em que a sua relação com a música também foi destacada.

Heitor dos Prazeres começou a pintar com cerca de 30 anos, quando já era uma figura proeminente no cenário cultural carioca – especialmente como compositor, sambista e fundador de escolas de samba. Em suas telas, construiu um registro singular do processo de transformação do samba: de uma expressão musical criminalizada à sua apropriação como símbolo nacional durante o período do Estado Novo. 

Heitor dos Prazeres é um dos artistas brasileiros mais complexos e interessantes do século XX. Transportou para as telas suas vivências nos meios do samba, do carnaval e do candomblé, com um olhar atento para o cotidiano das populações negras em meio à emergência da modernidade no país.

Sua atuação está intimamente ligada a momentos cruciais da história brasileira. Nascido em 1898, uma década após a abolição oficial da escravidão, construiu um registro singular das dinâmicas de trabalho, de sociabilidade e de religiosidades negras no contexto da modernização, assim como do processo de transformação do samba – de uma expressão musical criminalizada à sua apropriação como símbolo nacional durante o período do Estado Novo. Sua atuação múltipla nos oferece uma relevante visão sobre a formação e constituição da identidade brasileira, e nesse sentido, pode ser considerado complementar ao projeto empreendido pelo modernismo paulista, assim como um exemplo pioneiro da indistinção entre arte e vida.